Mauricio.

Lembranças

10 posts neste tópico

       Em Tangará da Serra há um rio. Nesse rio nada um peixe. O rio corre, frio e forte, como todo rio de montanha, serpenteando por entre pedras e barrancos cortados quase a prumo. Águas violentas, como devem ter sido quando criados os primeiros rios da terra, batem em suas margens, espirrando por sobre pedras, e areia, e terra. O peixe nada rápido nessas águas, nunca calmas como a brisa, sempre velozes como a tempestade.

      O peixe nada nesse rio, sua casa. A casa que conhece, a casa que conheceu desde sempre, desde que nasceu. Para ele, o mundo é aqui, águas violentas, energia louca, sempre e mais necessária para não ser levado de roldão. Para ele, o mundo é violência, turbilhão, bolhas de ar, onde ele encontra abrigo e comida, poucas vezes uma companheira. Para ele, o mundo não é uma escolha. O dia nasce. O dia morre. A noite cai. O dia nasce de novo.

      Diziam os índios que as pedras do rio conversavam entre si. O quê, era difícil saber se não fosse você uma pedra. Mas digamos que elas conversavam sobre o peixe. Digamos que elas falavam com o peixe:

      - Porquê tanta vontade? - perguntou uma delas – afinal, porquê tanta vontade?

     - Porquê insiste? – perguntou outra – afinal, porquê insiste?

      O peixe nunca respondeu. O que poderia responder um peixe? Que ser levado pela correnteza nunca foi uma escolha? A vida difícil sempre foi uma limitação à sua imaginação. Que saberia ele de águas mais calmas? Que poderia um peixe experimentar? Diferente dos índios que ali viviam, que nas ocas dormiam em suas redes nas noites frias, as fogueiras crepitando a seus pés embalando pensamentos, desejos, sonhos, quando pensavam em outros mundos...

       Imagino esse peixe agora. Talvez tenha sonhado com ele nesta última noite. Talvez tenha refletido em sua condição. Que paralelo poderia fazer com minha vida? Minha vida que sempre foi tão repleta de escolhas possíveis? As escolhas que levaram a onde estou neste momento? Seria preferível ser o peixe e não ter de escolher, apenas viver? Agora envelheço. E penso nessas escolhas.

         Muitas foram boas. Outras, muito pobres (talvez a maioria?). Os maus momentos, quando estou sozinho e pensativo olhando para as plantas e as nuvens na nesga de céu que ainda me é permitido ter no pequeno quintal. Esses, quando vêm à lembrança, sempre chegam de forma avassaladora. Espancam e afugentam as outras lembranças. E tomam toda a memória. E suspiro, envergonhado. Uma boa dose de sorte, talvez seja a única explicação de ainda estar respirando? Ou de covardia?

         Velhos amores. Muitas viagens. Amizades e perdas. Lugares e momentos. Velhas conversas. Pai e mãe. Estranhos. Perigos. Tudo vêm quando a memória divaga entre as nuvens. O que eu faria diferente naquele dia? O que eu faria, a mesma coisa? Onde estaria agora, então? Ainda espantado com o fato de estar vivo no mundo, e isso não ser exatamente uma maravilha em muitos momentos?

         O vento me socorre. As plantas farfalham e as nuvens passam. Afinal, que mais poderiam fazer plantas e nuvens? O mistério da existência acalma seu chicote e apenas me deixo fluir por entre aqueles Cúmulus que parecem algodão levemente sujo e que passam devagar por entre os telhados,  por onde minha memória nadou. Foi apenas um momento de desespero. Passará. As águas acalmarão.

         Não. O dia nasce. O dia morre. A noite cai. O dia nasce de novo. Na minha memória há um rio. Nesse rio, nada um peixe.

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Fantástico Mauricio!!!

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3 minutos atrás, Carlos Caffer disse:

Fantástico Mauricio!!!

:simsim::simsim:

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Muito bom, parabéns.

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Grande Mauricio,

Já sentíamos falta destes teus ótimos escritos! :simsim: Valeu, por mais este, amigão!  :bs-aplauder: 

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 E começa, e termina com um peixe nadando.

 :joia::joia:

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Em ‎06‎/‎06‎/‎2017 at 17:45, Mauricio. disse:

       Em Tangará da Serra há um rio. Nesse rio nada um peixe. O rio corre, frio e forte, como todo rio de montanha, serpenteando por entre pedras e barrancos cortados quase a prumo. Águas violentas, como devem ter sido quando criados os primeiros rios da terra, batem em suas margens, espirrando por sobre pedras, e areia, e terra. O peixe nada rápido nessas águas, nunca calmas como a brisa, sempre velozes como a tempestade.

      O peixe nada nesse rio, sua casa. A casa que conhece, a casa que conheceu desde sempre, desde que nasceu. Para ele, o mundo é aqui, águas violentas, energia louca, sempre e mais necessária para não ser levado de roldão. Para ele, o mundo é violência, turbilhão, bolhas de ar, onde ele encontra abrigo e comida, poucas vezes uma companheira. Para ele, o mundo não é uma escolha. O dia nasce. O dia morre. A noite cai. O dia nasce de novo.

      Diziam os índios que as pedras do rio conversavam entre si. O quê, era difícil saber se não fosse você uma pedra. Mas digamos que elas conversavam sobre o peixe. Digamos que elas falavam com o peixe:

      - Porquê tanta vontade? - perguntou uma delas – afinal, porquê tanta vontade?

     - Porquê insiste? – perguntou outra – afinal, porquê insiste?

      O peixe nunca respondeu. O que poderia responder um peixe? Que ser levado pela correnteza nunca foi uma escolha? A vida difícil sempre foi uma limitação à sua imaginação. Que saberia ele de águas mais calmas? Que poderia um peixe experimentar? Diferente dos índios que ali viviam, que nas ocas dormiam em suas redes nas noites frias, as fogueiras crepitando a seus pés embalando pensamentos, desejos, sonhos, quando pensavam em outros mundos...

       Imagino esse peixe agora. Talvez tenha sonhado com ele nesta última noite. Talvez tenha refletido em sua condição. Que paralelo poderia fazer com minha vida? Minha vida que sempre foi tão repleta de escolhas possíveis? As escolhas que levaram a onde estou neste momento? Seria preferível ser o peixe e não ter de escolher, apenas viver? Agora envelheço. E penso nessas escolhas.

         Muitas foram boas. Outras, muito pobres (talvez a maioria?). Os maus momentos, quando estou sozinho e pensativo olhando para as plantas e as nuvens na nesga de céu que ainda me é permitido ter no pequeno quintal. Esses, quando vêm à lembrança, sempre chegam de forma avassaladora. Espancam e afugentam as outras lembranças. E tomam toda a memória. E suspiro, envergonhado. Uma boa dose de sorte, talvez seja a única explicação de ainda estar respirando? Ou de covardia?

         Velhos amores. Muitas viagens. Amizades e perdas. Lugares e momentos. Velhas conversas. Pai e mãe. Estranhos. Perigos. Tudo vêm quando a memória divaga entre as nuvens. O que eu faria diferente naquele dia? O que eu faria, a mesma coisa? Onde estaria agora, então? Ainda espantado com o fato de estar vivo no mundo, e isso não ser exatamente uma maravilha em muitos momentos?

         O vento me socorre. As plantas farfalham e as nuvens passam. Afinal, que mais poderiam fazer plantas e nuvens? O mistério da existência acalma seu chicote e apenas me deixo fluir por entre aqueles Cúmulus que parecem algodão levemente sujo e que passam devagar por entre os telhados,  por onde minha memória nadou. Foi apenas um momento de desespero. Passará. As águas acalmarão.

         Não. O dia nasce. O dia morre. A noite cai. O dia nasce de novo. Na minha memória há um rio. Nesse rio, nada um peixe.

Belíssima crônica HU ! Sê de sua autoria parabéns ,mas se não parabéns também por compartilhar... lendo-a as palavras lembrou DRUMONT na narrativa descrevendo as coisas da terra natal.

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14 horas atrás, Roque Moraes disse:

Belíssima crônica HU ! Sê de sua autoria parabéns ,mas se não parabéns também por compartilhar... lendo-a as palavras lembrou DRUMONT na narrativa descrevendo as coisas da terra natal.

Sim, é minha :ok: . Escrevi muitos contos para o Pescaki. Eu devia escrever mais. Mas a maldita preguiça...

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Grande MAURICIO , a preguiça não serve como roupa para cobrir o corpo , sendo assim desvencilhe se dela , libere a mente para criar , gosto de escrever e aprecio uma leitura saudável e inspirada nas pequenas crônicas , exponha nos toda a sua coletânea  ...os caminhos se fazem ao andar assim logo estarás a  editar  se ainda não o fez.

MUITISSIMO OBRIGADO , "seo preguiçoso" pelos belos momentos de insight. :joia::giveup:

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42 minutos atrás, Roque Moraes disse:

Grande MAURICIO , a preguiça não serve como roupa para cobrir o corpo , sendo assim desvencilhe se dela , libere a mente para criar , gosto de escrever e aprecio uma leitura saudável e inspirada nas pequenas crônicas , exponha nos toda a sua coletânea  ...os caminhos se fazem ao andar assim logo estarás a  editar  se ainda não o fez.

MUITISSIMO OBRIGADO , "seo preguiçoso" pelos belos momentos de insight. :joia::giveup:

 He he he. Mas se der uma busca por este tópico, verá muitos outros que já cometi.

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