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Mauricio.    7267

     Lembrei-me de repente, como às vezes nos pegamos andando, almoçando ou até observando a distância. E, simplesmente, lembrei, não estranhando, ou melhor, estranhando sim como certas lembranças nos vêm sem pedir licença, às vezes de forma tão avassaladora que chega a assustar e nos faz inquirir o porquê isso agora, porquê esse momento em especial. E veio.

      E foi a um bom tempo atrás, tempo em que ainda me lembro havia uma certa melancolia no viver, uma certa expectativa no ar (seria a juventude?), um certo algo que, visto agora à distância do tempo e do espaço, me faz simplesmente achar que o que se conversava e se vivia antigamente tinha mais significado, um valor diferente. E simplesmente veio.

     Puxei na memória a conversa que ouvi quando morava perto do Rio São Francisco, o velho Chico para os mais íntimos, essa intimidade que todo mundo que já molhou os pés naquelas águas sentem-se no direito de ter, mas que talvez somente aqueles de lá que diziam já ter visto o Negro D'água e o Lobisomem, talvez somente esses pudessem chamá-lo realmente assim, pois apelido significa intimidade e intimidade com um rio significa ter ouvido demais seu marulhar, visto demais suas margens e barrancos, remado em suas brumas pela manhã, comido demais seus peixes, a ponto de não mais distingui-lo do marulhar de sua própria vida.

      Mas essa foi a conversa que lembrei e as coisas que vivi. Foi uma conversa de café na casa de alguém. Ou de pinga na casa de outro. Ou de balcão de bar em uma tarde quente e monótona, ou até mesmo na esquina poeirenta da pequena cidade, pois a quem importa onde foi? Importa a conversa, isso sim, e era sobre o assunto que qualquer vivente da região conhecia de fato: falavam sobre a pobreza.

      E isso tinha demais por lá. Desde uma pobreza digna, aquelas em que apesar do dinheiro não sobrar de forma alguma sempre havia o suficiente para se colocar o feijão na mesa e vestir as crianças, até aquela pobreza miserável, abjeta, onde o ser humano estava mais próximo dos animais e suas sinas, às vezes até pior que isso, longe de uma dita civilização Cristã. Porém, o assunto fofocado ia mais longe e era mais específico. Pois vou colocar aqui as palavras que ainda lembro e as coisas que vi, escolham se de um café na casa de alguém ou de uma pinga no balcão do bar, pois isso não importa, só o que importa são os sentimentos.

      - A casinha do véio está quase caindo. Não sei se ele vai aguentar com as cangáia.

      - Que velho? - perguntei de intrometido.

      - O seu Anacleto.

      - Anacleto? - perguntei na ignorância de um forasteiro, pois o que é alguém que lá estava apenas há poucos meses senão um estranho?

       A conversa se adiantou. Soube quem era. Velho e viúvo, vivia lá desde sempre, e provavelmente morreria por lá. Mas naquele momento, ele estava naquele limiar entre as duas pobrezas que citei antes. E caminhava a passos largos para a segunda. Anita, que de trás do balcão do bar, ou talvez nessa lembrança era quem servia o café na casa de alguém, ou talvez quem passava ao lado na rua, se isso importa, de alguma forma Anita entrou na conversa:

      - Sei quem é. Ele é viúvo, mora só. Levo comida pra ele quase todo dia, senão o coitado morre de fome. Tem que se pensá nos vivente.

       Agora, a lembrança muda. Depois da conversa inicial, não lembro mais como, mas lembro o nível de envolvimento que acabei tendo. Morador de cidade maior e só por pouco tempo vivendo por lá, sabia que estava só passando uma chuva. Mas depois de saber do pobre homem que vivia agora da bondade dos outros pouco menos pobres que ele, o envolvimento com a história foi uma sequência lógica para quem vive nesta terra e acha que ainda tem uma consciência.

      Fui um dia com a Anita ver a casa do homem, não sei exatamente porquê mas fui, aproveitando a ocasião do dia quando ela lhe levava alguma comida, pois ele já não conseguia mais cuidar de si nesse assunto. Realmente, estava em quase ruína. O terreno em volta de terra batida, irregular, sujo, cercado pobremente com varas trançadas, a cerca derrubada ou já completamente inexistente em vários pontos. Casa de taipa mal cuidada, onde se via faltava muito barro pisado para se fechar os buracos que se formaram com uma vida.

       Mas ninguém mais faria isso. Anita chamou o homem, que respondeu com voz fraca de dentro. Entramos. Dentro, o cheiro de decadência, como é comum em casas assim. Para quem não conhece é alguma mistura de umidade, barro, urina, mofo e cheiro de corpos humanos mal cuidados. Poucos móveis, somente o essencial, duas cadeiras, a mesa, a rede, um armário sem portas. Olhei para o alto e vi o telhado de folha de palmeira já há muito ressequido, que também precisava de troca.

       Vi o velho. Sem camisa, magro, costelas à mostra. A dificuldade de levantar da rede. Rosto sulcado, algum cabelo estranhamente ainda abundante mas já totalmente branco, barba branca rala e mal cuidada em volta de uma boca com muitos poucos dentes. Olhos tristes e embaciados pela idade. Pernas magras de velhice e pobreza que a bermuda velha cobria. Anita colocou a panela sem alça com a comida em cima da mesa velha e descolorida e foi ajudar o homem. Anita era quem ia sempre levar algum alento àquele lugar.

       Conversei um pouco com o homem. Soube de alguma coisa de sua vida. Nada excepcional. Falava baixo, fraco, como eu esperaria de alguém assim. Foi pescador, agricultor, pedreiro, levantador de cercas, qualquer coisa que o ajudasse a ganhar algum dinheiro na vida. Casou, teve filhos. Os filhos foram perdidos para o mundo, a mulher morreu. A vida passou. Ele estava ali. Ele e este mundo.

       Quando saí, saí com algumas certezas. A primeira, de que a vida pode sim ser muito ruim, madrasta, feia, horrível. A segunda que ainda há alguma solidariedade no mundo e que ela normalmente vem de gente sempre mais humilde. A terceira, que eu não podia ficar incólume depois de saber. E passei a ajudar a Anita, lhe dando algum dinheiro para contribuir com a comida do velho, e assim conseguir manter minha consciência um pouco menos pesada.

        E correram assim dias, mêses, um ano. E chegou o tempo de ir embora, pelos motivos que alguém vai embora de algum lugar, sejam eles quais forem. Depois de todos meus compromissos quitados deixei o que pude de dinheiro com Anita, me despedi e fui embora, dizendo a minha consciência que não se preocupasse, que Anita estava lá, alguém preocupado estava lá, o universo estava lá, preocupado e servil, como a única forma de não me remoer por dentro. E simplesmente fui, sem nem uma última visita ao velho.

* * *

 

        Depois de algum tempo, por aquelas raras coincidências, passando por lá novamente fui de novo ter com aquela vida. Acabei perguntando e me informando do que aconteceu naquela lacuna de tempo. Acabei sabendo do fim da história. Soube que Anita tinha falecido. Estranho, lembro que ela não era ainda realmente velha, estava só começando a entrar nessa fase da vida, mas a morte parece não ligar para esses detalhes. Bateu tristeza, pois eu gostava dela, a bondade dela tinha me dado alguma esperança no ser humano.

        Soube, também, por alto, que os do local deixaram a um rapaz mais jovem a incumbência de cuidar do velho Anacleto. Mas me pareceu que havia mais. Algo não estava certo na história. Uma certa desconfiança do gênero humano me fez achar que tinha mais coisa ali. Perdi algum tempo por lá garimpando os fatos, sabedor que o ser humano tem uma necessidade de contar o que sabe para o outro e que a fofoca e a maledicência são grandes motores da vida, mesmo que consumam muito, façam barulho, gerem mal cheiro e grande aborrecimento.

         Então soube mais. Soube que davam algum dinheiro para o rapaz comprar e levar comida e outras necessidades ao velho. Soube que não fiscalizavam isso. Soube que não queriam muito se incomodar com isso, que solidariedade, vejam só, essa palavra tem que ter limites. Soube que o rapaz, malandro, embolsava o dinheiro e depois de poucas visitas iniciais nunca mais voltou àquele terreno mal cercado e àquela casa em ruínas. Soube que o velho morreu, certamente de fome e abandono.

         Não quis saber mais nada depois disso. Não quis saber do destino do rapaz, nem de quem mais continuou vivendo por lá. Não quis mais saber dos bares, das casas, dos cafés bebidos, das conversas nas esquinas, das casas pobres de taipa mal cercadas. Enquanto molhava os pés nas águas do rio pela última vez, enquanto a vista se perdia nos morros, montanhas e barrancos que ainda estavam como eu me lembrava que eram, sentia raiva. Raiva pelos outros. Raiva por Anita. Raiva pelo velho. Raiva pela morte. Raiva pela vida. Raiva. Chutava a água. Sentei no barranco, lágrimas escorrendo.

        A tarde caiu e um cansaço tomou conta. Não queria mais sentir aquela indignação que se instala quando se sabe desse tipo de coisa, principalmente se você é do tipo que pensa e remói. Na verdade, fiquei aliviado quando parti de novo, dessa vez, sabia, para nunca mais voltar. Mas uma pequena chama ficou em minha mente, lá no fundo, como uma marcação sutil de ferro quente que nunca sumirá completamente, misturado com a consternação do absurdo da vida, um martelado fino porém profundo, uma pequena tristeza que parecia nunca mais iria encontrar alívio.

         Mas o tempo passa e a marca se atenua. Sempre é assim. Os barrancos estão agora cada vez mais distantes e sem forma. E o marulhar das lembranças começa a fraquejar. Agora estão cada vez mais fracos, cada vez mais longe, na bruma...

 

 

 

 

 

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Êita, diabo de vida difícil, sobretudo para os viventes menos afortunados! :huh: 

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Carlos Caffer    443

Baita texto, parabéns Mauricio!

Que nós viventes, possamos achar sempre uma Anita que nos acolha, independente de nossa situação.

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Willian87    550

Show @Mauricio. belo texto guri!!! :joia::joia:

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Mauricio.    7267
18 horas atrás, Domingos Bomediano disse:

Êita, diabo de vida difícil, sobretudo para os viventes menos afortunados! :huh: 

:)

18 horas atrás, Carlos Caffer disse:

Baita texto, parabéns Mauricio!

Que nós viventes, possamos achar sempre uma Anita que nos acolha, independente de nossa situação.

:joia:

37 minutos atrás, Willian87 disse:

Show @Mauricio. belo texto guri!!! :joia::joia:

Valeu pelo guri. Com esta idade, qualquer elogio assim já vale.  :joia::rotfl2:

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Willian87    550
Agora, Mauricio. disse:

:)

:joia:

Valeu pelo guri. Com esta idade, qualquer elogio assim já vale.  :joia::rotfl2:

Olha pela foto do seu perfil parece um guri pois elas são bem pequenas e baixa qualidades, me parece ser um guri :rotfl2::rotfl2: agora se fosse maior e com alta qualidade não sei não :rotfl2::rotfl2:

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Mauricio.    7267
1 minuto atrás, Willian87 disse:

Olha pela foto do seu perfil parece um guri pois elas são bem pequenas e baixa qualidades, me parece ser um guri :rotfl2::rotfl2: agora se fosse maior e com alta qualidade não sei não :rotfl2::rotfl2:

É o efeito Instagram. :rotfl2:

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Willian87    550
Agora, Mauricio. disse:

É o efeito Instagram. :rotfl2:

:rotfl2::rotfl2:

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Roque Moraes    328
23 horas atrás, Mauricio. disse:

     Lembrei-me de repente, como às vezes nos pegamos andando, almoçando ou até observando a distância. E, simplesmente, lembrei, não estranhando, ou melhor, estranhando sim como certas lembranças nos vêm sem pedir licença, às vezes de forma tão avassaladora que chega a assustar e nos faz inquirir o porquê isso agora, porquê esse momento em especial. E veio.

      E foi a um bom tempo atrás, tempo em que ainda me lembro havia uma certa melancolia no viver, uma certa expectativa no ar (seria a juventude?), um certo algo que, visto agora à distância do tempo e do espaço, me faz simplesmente achar que o que se conversava e se vivia antigamente tinha mais significado, um valor diferente. E simplesmente veio.

     Puxei na memória a conversa que ouvi quando morava perto do Rio São Francisco, o velho Chico para os mais íntimos, essa intimidade que todo mundo que já molhou os pés naquelas águas sentem-se no direito de ter, mas que talvez somente aqueles de lá que diziam já ter visto o Negro D'água e o Lobisomem, talvez somente esses pudessem chamá-lo realmente assim, pois apelido significa intimidade e intimidade com um rio significa ter ouvido demais seu marulhar, visto demais suas margens e barrancos, remado em suas brumas pela manhã, comido demais seus peixes, a ponto de não mais distingui-lo do marulhar de sua própria vida.

      Mas essa foi a conversa que lembrei e as coisas que vivi. Foi uma conversa de café na casa de alguém. Ou de pinga na casa de outro. Ou de balcão de bar em uma tarde quente e monótona, ou até mesmo na esquina poeirenta da pequena cidade, pois a quem importa onde foi? Importa a conversa, isso sim, e era sobre o assunto que qualquer vivente da região conhecia de fato: falavam sobre a pobreza.

      E isso tinha demais por lá. Desde uma pobreza digna, aquelas em que apesar do dinheiro não sobrar de forma alguma sempre havia o suficiente para se colocar o feijão na mesa e vestir as crianças, até aquela pobreza miserável, abjeta, onde o ser humano estava mais próximo dos animais e suas sinas, às vezes até pior que isso, longe de uma dita civilização Cristã. Porém, o assunto fofocado ia mais longe e era mais específico. Pois vou colocar aqui as palavras que ainda lembro e as coisas que vi, escolham se de um café na casa de alguém ou de uma pinga no balcão do bar, pois isso não importa, só o que importa são os sentimentos.

      - A casinha do véio está quase caindo. Não sei se ele vai aguentar com as cangáia.

      - Que velho? - perguntei de intrometido.

      - O seu Anacleto.

      - Anacleto? - perguntei na ignorância de um forasteiro, pois o que é alguém que lá estava apenas há poucos meses senão um estranho?

       A conversa se adiantou. Soube quem era. Velho e viúvo, vivia lá desde sempre, e provavelmente morreria por lá. Mas naquele momento, ele estava naquele limiar entre as duas pobrezas que citei antes. E caminhava a passos largos para a segunda. Anita, que de trás do balcão do bar, ou talvez nessa lembrança era quem servia o café na casa de alguém, ou talvez quem passava ao lado na rua, se isso importa, de alguma forma Anita entrou na conversa:

      - Sei quem é. Ele é viúvo, mora só. Levo comida pra ele quase todo dia, senão o coitado morre de fome. Tem que se pensá nos vivente.

       Agora, a lembrança muda. Depois da conversa inicial, não lembro mais como, mas lembro o nível de envolvimento que acabei tendo. Morador de cidade maior e só por pouco tempo vivendo por lá, sabia que estava só passando uma chuva. Mas depois de saber do pobre homem que vivia agora da bondade dos outros pouco menos pobres que ele, o envolvimento com a história foi uma sequência lógica para quem vive nesta terra e acha que ainda tem uma consciência.

      Fui um dia com a Anita ver a casa do homem, não sei exatamente porquê mas fui, aproveitando a ocasião do dia quando ela lhe levava alguma comida, pois ele já não conseguia mais cuidar de si nesse assunto. Realmente, estava em quase ruína. O terreno em volta de terra batida, irregular, sujo, cercado pobremente com varas trançadas, a cerca derrubada ou já completamente inexistente em vários pontos. Casa de taipa mal cuidada, onde se via faltava muito barro pisado para se fechar os buracos que se formaram com uma vida.

       Mas ninguém mais faria isso. Anita chamou o homem, que respondeu com voz fraca de dentro. Entramos. Dentro, o cheiro de decadência, como é comum em casas assim. Para quem não conhece é alguma mistura de umidade, barro, urina, mofo e cheiro de corpos humanos mal cuidados. Poucos móveis, somente o essencial, duas cadeiras, a mesa, a rede, um armário sem portas. Olhei para o alto e vi o telhado de folha de palmeira já há muito ressequido, que também precisava de troca.

       Vi o velho. Sem camisa, magro, costelas à mostra. A dificuldade de levantar da rede. Rosto sulcado, algum cabelo estranhamente ainda abundante mas já totalmente branco, barba branca rala e mal cuidada em volta de uma boca com muitos poucos dentes. Olhos tristes e embaciados pela idade. Pernas magras de velhice e pobreza que a bermuda velha cobria. Anita colocou a panela sem alça com a comida em cima da mesa velha e descolorida e foi ajudar o homem. Anita era quem ia sempre levar algum alento àquele lugar.

       Conversei um pouco com o homem. Soube de alguma coisa de sua vida. Nada excepcional. Falava baixo, fraco, como eu esperaria de alguém assim. Foi pescador, agricultor, pedreiro, levantador de cercas, qualquer coisa que o ajudasse a ganhar algum dinheiro na vida. Casou, teve filhos. Os filhos foram perdidos para o mundo, a mulher morreu. A vida passou. Ele estava ali. Ele e este mundo.

       Quando saí, saí com algumas certezas. A primeira, de que a vida pode sim ser muito ruim, madrasta, feia, horrível. A segunda que ainda há alguma solidariedade no mundo e que ela normalmente vem de gente sempre mais humilde. A terceira, que eu não podia ficar incólume depois de saber. E passei a ajudar a Anita, lhe dando algum dinheiro para contribuir com a comida do velho, e assim conseguir manter minha consciência um pouco menos pesada.

        E correram assim dias, mêses, um ano. E chegou o tempo de ir embora, pelos motivos que alguém vai embora de algum lugar, sejam eles quais forem. Depois de todos meus compromissos quitados deixei o que pude de dinheiro com Anita, me despedi e fui embora, dizendo a minha consciência que não se preocupasse, que Anita estava lá, alguém preocupado estava lá, o universo estava lá, preocupado e servil, como a única forma de não me remoer por dentro. E simplesmente fui, sem nem uma última visita ao velho.

* * *

 

        Depois de algum tempo, por aquelas raras coincidências, passando por lá novamente fui de novo ter com aquela vida. Acabei perguntando e me informando do que aconteceu naquela lacuna de tempo. Acabei sabendo do fim da história. Soube que Anita tinha falecido. Estranho, lembro que ela não era ainda realmente velha, estava só começando a entrar nessa fase da vida, mas a morte parece não ligar para esses detalhes. Bateu tristeza, pois eu gostava dela, a bondade dela tinha me dado alguma esperança no ser humano.

        Soube, também, por alto, que os do local deixaram a um rapaz mais jovem a incumbência de cuidar do velho Anacleto. Mas me pareceu que havia mais. Algo não estava certo na história. Uma certa desconfiança do gênero humano me fez achar que tinha mais coisa ali. Perdi algum tempo por lá garimpando os fatos, sabedor que o ser humano tem uma necessidade de contar o que sabe para o outro e que a fofoca e a maledicência são grandes motores da vida, mesmo que consumam muito, façam barulho, gerem mal cheiro e grande aborrecimento.

         Então soube mais. Soube que davam algum dinheiro para o rapaz comprar e levar comida e outras necessidades ao velho. Soube que não fiscalizavam isso. Soube que não queriam muito se incomodar com isso, que solidariedade, vejam só, essa palavra tem que ter limites. Soube que o rapaz, malandro, embolsava o dinheiro e depois de poucas visitas iniciais nunca mais voltou àquele terreno mal cercado e àquela casa em ruínas. Soube que o velho morreu, certamente de fome e abandono.

         Não quis saber mais nada depois disso. Não quis saber do destino do rapaz, nem de quem mais continuou vivendo por lá. Não quis mais saber dos bares, das casas, dos cafés bebidos, das conversas nas esquinas, das casas pobres de taipa mal cercadas. Enquanto molhava os pés nas águas do rio pela última vez, enquanto a vista se perdia nos morros, montanhas e barrancos que ainda estavam como eu me lembrava que eram, sentia raiva. Raiva pelos outros. Raiva por Anita. Raiva pelo velho. Raiva pela morte. Raiva pela vida. Raiva. Chutava a água. Sentei no barranco, lágrimas escorrendo.

        A tarde caiu e um cansaço tomou conta. Não queria mais sentir aquela indignação que se instala quando se sabe desse tipo de coisa, principalmente se você é do tipo que pensa e remói. Na verdade, fiquei aliviado quando parti de novo, dessa vez, sabia, para nunca mais voltar. Mas uma pequena chama ficou em minha mente, lá no fundo, como uma marcação sutil de ferro quente que nunca sumirá completamente, misturado com a consternação do absurdo da vida, um martelado fino porém profundo, uma pequena tristeza que parecia nunca mais iria encontrar alívio.

         Mas o tempo passa e a marca se atenua. Sempre é assim. Os barrancos estão agora cada vez mais distantes e sem forma. E o marulhar das lembranças começa a fraquejar. Agora estão cada vez mais fracos, cada vez mais longe, na bruma...

 

 

 

 

 

O que dizer desta crônica meu amigo Mauricio? São palavras duras e cruéis para quem não conhece o verdadeiro significado da palavra Miséria na vida real , não muito distante de nós, mesmo numa metrópole rica, nas suas cercanias há quadros assim descritos magnificamente por ti, e a pior situação de miséria  estão espalhadas nos recantos do sertão norte/ nordeste deste pais continente...tão real quanto as tuas palavras. - na minha espiritualidade não há espaço para reclamar quanto às dificuldades do dia a dia porque me espelho na miséria alheia e me vejo como um magnata. A tristeza que sinto no meu coração é pelo fato de não poder ser uma Anita e mais ainda saber que temos milhões de "rapazes" na decretação desta miséria.

PARABÉNS! " A água bate em pedra dura! tanto bate até que fura." - cito porque somente na dramaticidade das palavras, se pode atingir o fundo das consciências e quem sabe haver menos discursos do "nós podemos" e de fato eu fiz sem ninguém saber...silenciosamente, sem pleitear favores. 

 

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