Recommended Posts

Você sempre me perguntava: “Por quê?!”. Insistentemente, esse sempre foi o seu questionamento. Quando não em palavras, suas expressões denunciavam sua angústia e revolta enquanto me olha empenhado em organizar o material pra levá-lo até o carro.

Não consegui te explicar o que era a pesca naquela época. Tenho consciência que não será hoje que alcançarei esse intento. Reconheço, contudo, que não é uma questão de “querer ou não querer entender”. Fica mais no campo do aceitar ou não aceitar.

Porque estou escrevendo isso?! Talvez, apenas queira dar vazão a minha própria incompreensão. Não sei, realmente não sei, porque estou fazendo isso. Não tenho a mínima idéia. Não é uma catarse como você pode supor. Você sabe que eu não acredito muito em catarse... Detesto essa palavra inclusive.

Resolvi, entretanto, pelo menos, tentar colocar isso no papel. A cada linha, sinto que foi uma má idéia. Contudo, foi preciso, se eu não o fizesse, você não permitiria que eu tivesse sossego.

Certas coisas, não consegui escrever. Não tenho uma resposta. Não sei, por exemplo, porque saio e queimo o rosto sob o sol, enfrento intempéries. Por que mesmo no frio, me molho todo na garoa. Corro riscos desnecessários eu admito. Não vou deixar de corrê-los, também sou obrigado a admitir.

O que acontece quando eu pesco? Nada demais, você fica ali, olhando pra água, vendo se a ponta da vara mexe. Só isso. Talvez seja tedioso... Não sei ao certo.

Essa história de apreciar a natureza?! Ah, não, não mesmo, isso é mentira dos programas da televisão que querem promover o hotel mais bacana do rio Teles Pires ou o lodge do Rio Xingu. Se você está prestando atenção na linha, na vara, pode passar um dinossauro voando na sua frente que você não conseguiria perceber.

Preservar a natureza é outra lorota. Não que eu não contemple a natureza ou não queira preservá-la, só que não faço isso enquanto estou pescando.  Faço em outras ocasiões mais oportunas, por exemplo, decido devolver o peixe ao invés de matá-lo, ou quando vou andando pra chegar ao ponto de pesca e fico deslumbrado com as plantas daquele lugar.

Só posso dar uma explicação, para a minha obsessão: A fisgada.

Quando você fisga um exemplar de bom tamanho, que oferece resistência é aí que começa algo difícil de explicar... Primeiro você puxa a vara e não consegue trazer o peixe. Pela vara é possível sentir o quanto a linha está tensionada, está em seu limite.

Cada parte do seu organismo para. Nem sequer se sente o batimento cardíaco ou a respiração. Apenas aquela tensão na vara, linha e anzol é transmitida a você.

Não há pensamentos, às vezes se escuta bem ao longe a voz dos companheiros, mas não consigo entender ou escutar o que estão gritando. Ouço o estardalhaço das suas vozes como se fosse a milhares de quilômetros de distância, apesar de estarem berrando ao meu ouvido.

Enquanto a linha é esticada e a vara verga, a realidade vai se esvaindo, desaparecendo. Tudo se resume ao peixe e a mim, ligados infimamente pela linha. Sinto a sublime sensação do completo vazio. Não o vazio no conceito ocidental (que é desespero), um outro tipo de vazio, em que você encontra o que é realmente a sua natureza.

Nesse vazio não há as opressões da realidade e do ego. É o vazio sublime.

Finalmente sinto que o peixe se rendeu, sou bruscamente dragado de volta a realidade. Vem o puçá, começo a escutar de novo os gritos, abraço os companheiros. Comemoramos gritamos, uns até beijam o peixe nessa hora, como se  ele fosse um filho.

O peixe volta pra água.

É essa sensação.  É ela que me obriga a tentar de novo, é por ela que eu volto a pescar. Ela é minha sina. Minha dádiva e minha maldição. Prisão e liberdade. Obrigação e desobrigação. É a completude do absoluto vazio.

Vou continuar enquanto Deus permitir que eu continue. Só vou parar se Ele disser que devo parar.

Permaneço pescando.

 

 

Carta do pescador a ele mesmo.

  • Like 6
  • Thanks 1

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

ScreenHunter_1972 Feb. 20 07.56.jpg

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

É mais ou menos por aí, Grande Hugo! :clapping: 

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Uma pena não poder mais de um like !!!

Sensacional Hugo !!!!  :joia:

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

@HugoFreitas

Que texto, meu amigo, que texto! Sensacional!

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Frequemente pessoas me abordam iniciando a conversa com a frase clássica: "Pescando muito Batista?". A pessoa não percebe que tem muitas outras coisas pra eu me preocupar, familia, trabalho, estudo. É nessa hora que sou obrigado a responder: "Não tanto quanto gostaria, bora hoje?" Kkk

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites
1 hora atrás, Alexandre Fishing disse:

Frequemente pessoas me abordam iniciando a conversa com a frase clássica: "Pescando muito Batista?". A pessoa não percebe que tem muitas outras coisas pra eu me preocupar, familia, trabalho, estudo. É nessa hora que sou obrigado a responder: "Não tanto quanto gostaria, bora hoje?" Kkk

Ao vício.... hehehe. Tem determinadas épocas na vida onde acho, que se fosse possível, o "ia pra água" ou pro "barranco" todo dia. Pena que não tem jeito...

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites
Em ‎21‎/‎02‎/‎2018 at 11:04, HugoFreitas disse:

Ao vício.... hehehe. Tem determinadas épocas na vida onde acho, que se fosse possível, o "ia pra água" ou pro "barranco" todo dia. Pena que não tem jeito...

Caboclo Na Cidade

Dino Franco e Mouraí

A letra desta musica retrata fielmente a vida no dia  a dia do caboclo na sua origem. Hoje somos caipira da cidade cheio de tecnologia, respirando o ar da vida raiz por ouvir falar. a vida é simples, por que complicamos?

 

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites
9 horas atrás, Roque Moraes disse:

Caboclo Na Cidade

Dino Franco e Mouraí

A letra desta musica retrata fielmente a vida no dia  a dia do caboclo na sua origem. Hoje somos caipira da cidade cheio de tecnologia, respirando o ar da vida raiz por ouvir falar. a vida é simples, por que complicamos?

 

Chegeui a escutar essa moda há muito tempo Roque, mas acho que os intérprites eram outros.. Mas é  mais pura verdade tanto a letra da moda quanto o que você disse. Complicamos muita coisa desenecessariamente. Obrigado Roque!

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisar ser um membro para fazer um comentário

Criar uma conta

Crie uma nova conta em nossa comunidade. É fácil!

Crie uma nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Entrar Agora

Parceiros: www.petsEXPERT.pt