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Bolão.

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Sobre Bolão.

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  • Nome Real
    Hugo Freitas
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    Freitas
  • Estilo de Pesca
    água doce
  1. Olá turma tudo bom? O texto é meio grande por isso eu vou deixar um anexo em PDF no final do post, porque eu acho que a letra no pdf é melhor pra ler. Abração! Meandros da Pedreira Geraldo subia apressadamente o íngreme morro da Rua Brasil. Esbaforido, o homem baixinho que acabava de chegar aos cinquenta e dois anos, gordo e bochechudo, com os cabelos mais grisalhos que pretos penteados pra trás, era a cara de Delfim Neto. Com seus passos curtíssimos de boi de carro, suava e bufava, embaçando seus óculos fundo de garrafa para chegar ao topo da rua e dobrar a esquina. Bruno, que trabalhava no porão debaixo do bar estranhou um pouco a cena. Inclinado sobre a máquina de costura a cabeça branca do alfaiate se ergueu quando viu o colega gordo passando naquele apavoramento. Nenhuma novidade em ver Geraldo indo em direção ao Bar Central. Mas aquela velocidade toda, pra alguém daquelas proporções... Tinha acontecido algo incomum, no mínimo. “Tem coisa aí...” sussurrou pra si mesmo. Esse murmúrio foi emitido e seguido de um erguer-se apressado da cadeira em que estava. Num repelão ele rapidamente abandonou a mesa de trabalho deixando a cadeira cair com um baque. O carretel de linha que a pouco tentava entrar na agulha da máquina foi abandonado junto com o paletó que era para ser remendado. Lá do bar dava para ouvir a portinha do cômodo sendo bruscamente abaixada e as chinelas de couro do alfaiate se arrastando pela rua acima. Exatamente dez anos mais velho que Geraldo, não era o melhor exemplo de modista, visto que o próprio alfaiate tinha uma parca indumentária. Perenemente vestido com camiseta sem mangas e bermuda enrodilhada por uma pochete. Fisicamente, Bruno era a antípoda do colega de copo. Muito alto exibindo o peito chato e vincado de ossos, os braços magérrimos. O rosto fino, quase sem lábios e queimado de sol era coroado por com óculos “de leitura” na ponta do um enorme nariz aquilino. Um pedreiro que trabalhava na obra do outro lado, conhecido também da turma observou a cena, quando o baixinho chegava à esquina e o alfaiate, homem palito, seguia em seu encalço. Não resistindo ao antagonismo bizarro dos dois colegas, do alto do andaime deu um berro: _Eita que lindo! Um saco de osso correndo atrás do saco de banha! _Ô Tião vai trabalhá vagabundo! Fica o dia inteiro no alto dessa porcaria pra tomar conta da vida dos outro! Aproveita essa trena pra ver o tamanho do seu chifre ao invés de ficar de sentinela! Um dos grandes prazeres de Tião naquela obra era poder irritar Bruno toda a vez que ele punha a cara pra fora da alfaiataria. Fora o próprio alfaiate que tinha conseguido o serviço para o pedreiro. Eram vizinhos no bairro além de colegas de pinga. Do alto do andaime viu ainda o costureiro entrando no boteco da esquina. Um ônibus passou obstruindo temporariamente a visão. Aquilo despertou o pedreiro. Poxa vida! Já devia ter passado de quatro horas! Nada mais justo que encerrar o serviço... Apesar do preço baixo do serviço, o dono da casa vizinha ao bar já começava a questionar a eficiência do tal Sebastião. Realmente o homem não era muito apressado. Por exemplo: aquela parede que ele estava rebocando, era serviço pra uns dois dias. Mas muito “meticuloso”, o homem já levava quase duas semanas para terminar. Era bem comum ver o homem deitado no alto do andaime tirando um cochilo; ou no meio do dia indo para o Bar Central conversar um pouco com os colegas; ou ainda ir dar uma volta na praça pra conversar com algum rabo de saia. De mais a mais, Tião desceu da obra e a curiosidade era tamanha pra ver que correria era aquela, que nem mesmo trocou de roupa. Ainda sujo de cimento foi a passos apressados para o bar. Na esquina, quase foi atropelado porque se distraiu com uma a saia vermelha e curta; isso era algo que acontecia com uma certa frequência. A parte masculina da humanidade há muito apresenta uma correlação entre saias curtas e atropelamentos, atropelando ou sendo atropelado. Virou a esquina e entrou no bar. O bar como sempre, na eterna semi-escuridão, emanava aquele cheiro característico que todo o boteco deve ter. Um cheiro denso de fritura, pinga, e de balas que estão há muito tempo esquecidas debaixo do balcão. As paredes do bar permaneciam ali, encardidas como sempre. O Teixeira e sua barriga, fiel companheira de muitos anos, que lembrava a giba de um nelore virada pro abdome, permanecia ali em seu posto característico, debruçado sobre o balcão envidraçado. O Teixeira era aquele negócio: uma modorra danada, bonachão e pachorrento, quase não falava. Careca e com um bruto de um bigode grisalho ficava ali o dia inteiro, parecia que nem sai daquela posição. Debruçado jogando o peso pesado contra o balcão uma mão deitada por cima do tampo e a outra escorando a cabeça, olhando pra fora do bar com aquela expressão sonhadora de quem tentou e deu errado, sabendo que dando errado, podia dedicar o resto da vida a pensar: “E se tivesse dado certo?” A lentidão do Teixeira pra fazer as coisas era tamanha que ele parecia viver num universo à parte onde a atmosfera era feita de um óleo grosso, que refreava todos os movimentos. Todos gostavam do Teixeira, principalmente por que ele falava pouco e era simpático com todos. O bar nunca tinha confusões. Era muito pobre pra atrair alguém disposto a chamar a atenção em uma briga. Se fosse pra ver encrenca era melhor o Bar do Torresmo lá na outra ponta da praça. Sem confusão, o Tião entrou e tudo na mesma, mesmo cheiro “pinga-fritura-doces” velhos, o Teixeira com olhar de gato castrado mirando o Geraldo e o Bruno conversando entre si. Enquanto ia à direção do balcão acabou tropeçando no pé de uma das mesas de metal que ficavam lá dentro. Se reequilibrando xinga palavrão e completa: _ Ô Teixeira! Mas que (xinga de novo). Por que você não acende essa (xinga de novo) dessa luz?! Fica essa (xinga novamente) desse escuro do (mais uma vez xingando), e eu com essas ( mais uma palavrinha daquelas) de catarata no olho, enxergando igual a um morcego não vejo nada! Teixeira coça o nariz e se limita a dizer: _É mesmo xô acender esse trem aqui.... Bem devagarzinho, vai pro fundo onde ficava o único interruptor da espelunca. A luz amarela revela algumas novidades. O chão está encardido pra dedéu, mas, nenhuma novidade, já o Geraldo, estava todo arranhado a roupa suja de terra e de mato. _Mas que é que aconteceu com cê home? _Ô Tião, eu tava contado aqui pro Bruno que eu fui atrás de uns tatus hoje cedo, e deu nisso... _Mas pera aí, tatu?! Por que você tá todo estropiado assim? _Fui caçar de escuteira[1] dessa vez... Saí de casa devia ser quase três da madrugada... _Mas você caiu? Tá todo esfolado... _ Foi até bom você ter chegado, porque aí eu já conto pro’cê, pro Teixeira e pro Bruno de uma vezada só. _O Teixeira dá uma pinga aí. Não pega aquela da partilera[2] de baixo... Isso, essa aí! Enche o copo do Tião _Põe mais duas aí, pro dois. Isso. Enche assim mesmo. brigado. Bruno e Geraldo agradecem a cortesia da pinga oferecida por Tião. Eles se revezam nessa tradição de um pagar pinga pro outro há muito tempo. Nenhum deles despreza o poder da pinga de abrir portas soltar e soltar a línguas. Geraldo beberica e começa a narrar: _O Gilberto, meu vizinho lá no Resende, tinha falado comigo que foi na mata da Mineração caçar no Sábado de Aleluia, isso deve ter uns 15 dias. _coça a cabeça, toma mais um gole, pigarreia e continua_ Ficô falano que tinha visto muito buraco pra cima e pra baixo, mas que o cachorro tava emprestado com o cunhado e que ele também estava sem armadilha. Parece, inclusive que ele foi atrás de umas capivara que tava lá. _Mas o Gilberto não tem arma não uai! _Não ô Bruno, ele, acho que tava caçando era com fisga[3]... _Uai, mas pra ir atrás de capivara, sem cachorro?! _Foi o que ele falou... Vou lá confiar nele?! _Sei não esse negócio aí tá com cara de mintira... _Pois é; mas de’xô continuar aqui o negócio aqui c’ô to falano_ mais uma vez molha os dentes com a pinga e prossegue_ Mintira ou verdade, o que acontece é que ele ficou falano na minha cabeça dos buraco, falano”de tatu isso, tatu aquilo, eu fui enfezando com o negócio e resolvi que ia lá quando desse. Com a voz pastosa e nasal o Teixeira, mirando o estado deplorável das roupas do narrador, serviu outra pinga pra si mesmo e perguntou o óbvio: _ E ocê foi?... _É claro que eu fui! _ sem muita paciência_ Você acha que minha roupa ficou desse jeito como? _ Não uai! Mas ocê parece que foi num é caçá, tá é pareceno que foi pra guerra. Tá todo rasgado todo imundo aí, olha o barro que ‘cê pôs pra dentro do bar... Geraldo olha pro chão e nota que está difícil identificar em meio à sujeira acinzentada pontuada por nodoas pretas, preservadas pela falta e limpeza do piso onde estava o tal barro e onde era sujeira do século anterior. Continua sem dar importância a repreenda: _ Mas então... Eu fiquei com esse trem desse tatu na cabeça. Mas não deu pra ir mexer com isso porque ele me falou isso foi no Sábado de Aleluia e aí era negócio de Páscoa, e almoço, e não sei o que... E, você não sabe da maior Teixeira, o Tião também não sabe dessa não... _Não sei do quê? _ Tião gritou lá da porta pra onde tinha ido pra fumar um cigarro encostado na parede e olhando o movimento do fim da tarde na praça enquanto ouvia a conversa. _’Xô contá pro ‘cês uma que eu alembrei aqui. Meu genro foi nesse almoço de páscoa. No sábado eu fiquei lá matando frango e aparece não sei quem, pede pra eu matar o frango pra Lourdes, que o marido é um cachaceiro e não para em casa e tem dó de matar o frango e não sei o que. E quem que vai matar o raio do frango? Eu! E minha mulher começa a falar na minha cabeça que: “Coitada da Lourdes que fica sozinha em casa; que o marido não presta que eu tinha que matar esse frango; que coitado do frango que tá tão magrinho; que era pra chamar a Lourdes pra ir lá pra casa domingo” E aquela encheção de saco na minha cabeça enquanto eu to segurando o frango... Mas o que que eu tava falando? _’Cê tava falando do seu genro... _Pois é Teixeira; isso mesmo ‘brigado! Como eu lá ia dizendo, o meu genro, isso mesmo. Ele é desses moço de cidade de Belzonte, incrusive. Aí eu vô e falo de caçá de pescá no meio do almoço ele me veio falar que caçar era maldade que ele ficou embasbacado de saber que eu caçava. Aí eu virei pra ele e falei assim: “Cê é doido minino, e qual que é a diferença de caçar e matar um frango?” E aí ele me fala que não come carne! _Como é que é o negócio?! _Eu não te contei isso não Bruno? _ Não uai, por isso que eu to te perguntando..._ o alfaiate ergue as sobrancelhas ao extremo “enrugando a testa enrugada”, espantando com essa novidade de alguém no mundo não querer comer carne. _Pois então. O rapaz não come carne não! É negócio de “vegetariano”. Aí minha filha ficou explicando meia hora que tem negócio de proteger os animal... _Que negócio é esse? _Nem te conto, o rapaz ficou falando que era maldade que eu fazia e minha filha entrou na conversa. O Teixeira interpelou: _ Isso aí de não comer carne tem mesmo! Deixa eu conta pro ‘cês: Outro dia eu peguei aqui no pra uma revista e tava olhando uma propaganda falando desse Verona 94, que um sonho de consumo, inclusive. Ele, cor de vinho igual na propaganda... Se eu fosse rico comprava na hora! E ele vem com vidro elétrico olha que chique!É um baita dum carro e... _Ô Teixeira! Quê que isso tem a ver com não comer carne? Tá falando de carro zero e eu to falando de não comer carne. _Não, discurpa, é que eu distraí. É que do lado da propaganda do Verona tava falano disso aí de vegetariano. Diz que agora tá surgindo na Inglaterra e nãoi sei mais onde, negócio aí de veganismo, que meio isso aí, de não comer carne... _Eu já ouvi falar sim! É negócio do cara ser “vergano” num é Teixeira? _Isso mesmo Tião, é isso aí vergano[4]. O cara que é vergano ele não usa nada de animal. Nem toma leite nem usa os negócio de couro nem nada! _Mas que tem isso a ver com vergá[5]? Uai, vergá é vergá, assim, por exemplo, um ferro, um arame é drobá ele... _Isso eu num sei não, mas eles chama de vergano a pessoa que é assim. Deve que a pessoa se dobra pra não usar os negócio que vem dos bicho... Sei lá... _ Você vê onde que esse mundo vai parar_ Tião em seguida tem uma epifania_ Uai! Só agora que desconfiei! Que você tá fazendo aqui Geraldo? Sexta feira de tarde não era pra você ‘tá trabalhando até as 17:30 não? _Não Tião, Mauro, vigia lá no serviço, pediu pra eu ficar no domingo de madrugada no lugar dele na repartição por que a mulher dele vai fazer uma cesária no domingo e é ele que vai acompanhar ela no hospital. Aí eu troquei com ele hoje. _ Mas lá tem televisão? No fórum lá quer ocê trabalha? _Tem. É até bom que eu vou poder ver a corrida. Vamos ver se o Senna sai melhor do que foi aqui no Brasil no dia 27. _ Ah, mas vai sim. Eles tem é que acertar o carro. Se fosse o mesmo carro do ano passado era certo de ele ganhar tudo esse ano. Mas esse carro aí parece que está um pirigo... _Que o quê Teixeira! Perigo não é tanto mais não! Nós estamos em 94 hoje, Fórmula Um é segurança total. Eles tem é que acertar o carro. _Pera aí! E o negócio da sua caçada que nós até agora não tâmo sabendo? _ Ah é! Pois é quem distraiu agora fui eu. Voltando a história dos tatus, eu fiquei incucado com essa história de ter tatu pra todo lado lá na mata da Mineradora e bolei um plano pra ver o que dava pra fazer. Como lá é muito longe e eu ainda ia ter que andar muito pra dentro do mato nem cogitei de levar armadilha. _Lá é longe de mais. Que hora que ‘cê saiu? Geraldo põe a mão no queixo coça, toma outra talagada de pinga. Coça a cabeça. _Ah Tião, eu devo ter saído umas três e meia da manhã. Porque, eu até tinha deixado as coisa tudo arrumada, mas só que eu tive que andar na Br, foi mais de uma hora e meia. É pra baixo do Campo Belo que tem que entrar numa estrada dispistada quase mato. _É despois da pontezinha? Eu já pesquei na ponte que tem ali perto daquela fazenda antiga... _Não, não. É antes de chegar ali. Tem uma bifurcação antes da segunda porteira que pega aquela estrada que vai pra Vargem Alegre. _Mas ali não é estrada particular não? Não é terreno da Vale do Rio Doce? _É sim. Mas ali ninguém fiscaliza nada não. Ali só tem um mata-burro velho e nada. A estrada metade dela o mato comeu, inclusive. Eu andei nela até aonde deu e larguei o fusca ali. Depois tem uma trilha descendo lá pra baixo... Porque a mata, ela fica num buraco, não sei se ocê já entrou nela. _Não eu nunca entrei não. O Ernesto é queria entrar lá pra arrancar parasita[6]. _Que Ernesto Tião? _O Ernesto sô! O Ernesto Lajota, que mexia com os galo de briga... _Ah sei! Que foi casado com a irmã do Gumercindo? _Isso, esse mesmo. Ele gosta muito desses negócio de parasita de orquídea sabe Geraldo? _Sei, sei sim. _Então... Ele ficou falando pra nós ir lá e coisa e tal. Mas eu acabei não indo. Ele foi encheu um saco de parasita. Deu até umas pra eu levar pra minha mulher plantá. Só que ele falou um negócio que me desanimou de ir lá._ No meio da frase e fica tentando por quase um minuto acender outro cigarro com um isqueiro velho que só fazia faísca. _Ô Tião! Toma meu isqueiro aqui, esse seu tá uma bela duma porcaria. _ ‘Brigado Bruno_ responde com a voz abafada porque segurava o cigarro com os lábios apertados. Mete o dedo no o isqueiro. Sai a chama. Dá uma tragada violenta; parece que vai consumir o ar da atmosfera inteira do bar tamanha a força do puxão de ar. Solta a fumaça pelo nariz amortalhando o bar de uma neblina azulada. Continua: _Como eu tava falando, me desanimou, porque ele falou que tá cheio de cobra dentro do mato. Ele matou dois urutu só naquele dia. Me contou que tem uma pedreira lá pra dentro que é o puro cascavel.Você teve lá nessa tal pedreira? _Então... É isso que eu ia falar. Na hora que desci do fusca ainda tava muito escuro, não era nem 5 horas... Durante quase um minuto houve um silêncio e Geraldo interrompeu a história ficou ali parado olhando pro tempo. Na sua mente os rebrilhavam as memórias tempestuosas do que havia acontecido dentro do mato. Tudo de maneira tão vívida que lhe provocou essa silenciosa consternação. Quando ele desceu do carro ainda estava escuro e resolveu pegar a garrafa térmica pra tomar um café. Abriu a garrafa bebericou, fumou um cigarro tirado do maço amarrotado que estava no bolso do casaco velho. Isqueiro tirou de dentro do bornal. Melhor mesmo era esperar amanhecer e rezar pra cerração não baixar com muita força porque se não ele ia ficar ensopado em poucos minutos andando por dentro do mato. O cheiro do capim molhado era tão forte que abafava até mesmo o cheiro do cigarro e do café. A única luz era da lanterna que, amarelada gerava uma auréola de em torno da frente do carro onde o capô estava aberto e na beirada dele sentado estava o Geraldo. Matutou: “Espero clarear mais ou já desço por aqui mesmo? Se eu tiver de descer aqui, pelo que o Gilberto me falou eu tenho que contornar a pedreira...Quer saber vou descer é aqui mesmo. Vou caçar confiar em Gilberto? Que tem medo até de trovão? Tomou até safanão da esposa e tudo? Que se dane! Desço aqui mesmo e agora.” Pegou a cartucheira, o bornal, enfiou a bainha no cinto. O barulho abafado com o capô fechando no meio daquele silêncio lhe deu um arrepio. Limpou o nariz que escorria por causa do frio e da umidade e começou a seguir a trilha que embrenhava no meio do mato. Por quase meia hora desceu pela trilha no meio da semi-escuridão do amanhecer que dentro de uma mata é sempre uma escuridão completa. Olhando pra cima por entre folhas e galhos que se sobrepunham via o céu azulado se matizando deu ma cor cada vez mais clara à medida que o tempo ia passando. Olhou o relógio: “Seis horas.” O Sol finalmente começava a transpor as copas das árvores e permitia desligar a lanterna. Olhando com atenção, agora que estava claro, percebeu que tinha saído da trilha e estava já no meio de sabe-se lá onde. Tinha cipó pra todo o lado. O mato ali estava tão fechado que o chão só possuía aquela cobertura de folhas secas. Ao andar se ouvia apenas as folhas estalando sob as botinas. “Que droga! Esqueci o facão lá em cima” Em alto e bom som, falou um palavrão e bateu o pé com força, insatisfeito com a própria burrice. Agora estava ali, sem facão. Se voltasse ia perder um tempo danado. O melhor era tentar continuar e ver o que dava pra fazer. O terreno agora já não era mais uma descida, se aplainava. Mas não tinha ainda chegado ao fundo do vale. Agora com a claridade dava pra ver que o Gilberto não tinha mentido. Buraco de tatu não faltava. Só que muitos daqueles buracos eram antigos. Alguns já estavam até com teias de aranha na entrada ou semi-cobertos com folhas, ou seja, estavam abandonados a um bom tempo. “Que idiotice. Confiar em vizinho... Onde é que eu fui amarrar minha égua?!” Seu xingamento mental foi interrompido por um crepitar. Alguma coisa fez barulho. Atento, Geraldo por força do hábito se abaixou e apurou o ouvido. A coisa também ficou parada quando ele se abaixou. Os olhos pretos e miúdos dos caçador escaneavam o derredor procurando a origem do barulho. Mais de dois minutos se passaram. Caçador e presa. Um tentando encontrar o outro. “Será um gambá voltando pro ninho?” Um novo farfalhar de olhas secas riscou a atmosfera. Um vulto. Gerlado sente o coração martelar, aperta os olhos atrás dos óculos tentando ver melhor. Novamente o vulto se move fazendo um contorno. Um tatu-galinha. Pequenininho. Deve ter se assustado com o barulho de alguém andando perto da toca. Está parado. Não consegue ver o caçador ali tão próximo, a menos de quinze metros. Lentamente, sem fazer barulho, pega dois cartuchos 28 gauge, não devia usar chumbo 3T, mas era o que tinha, conformava-se em estragar a carne de um tatu tão pequeno para uns bagos de chumbo tão grandes. Coloca nas culatras. O silêncio é tanto que é possível ouvir o cartucho deslizando pelo cano até a base de metal atingir a entrada da culatra, provocando um barulho muito baixo, metálico. Fecha a espingarda com um estalo. O tatu, semi-cego, se vira para o local de onde saiu o barulho, mira com os olhos néscios o Geraldo agachado com a cartucheira a tiracolo, com a culatra ainda quebrada. Percebendo o voierysmo assassino que o espreita, o bicho sai em disparada. Automaticamente, como que movido por uma força irracional e instintiva, Geraldo, fecha a arma com um fazendo soar um clique, comum nas espingardas mochas como a dele e se levanta de um pulo, se dispara numa carreira alucinada atrás do tatuzinho. Balofo e desconjuntado, corre pisando em galhos e quebrando folhas. De relance percebe que o tatu fez um contorno. Parece que parou perto daquele tronco caído. “Mal posso enxergar ele, mas acho que dá pra acertar”. Ofegante, levanta a CBC carregada; mal prega os olhos na massa de mira. Outra carreira do pequeno mamífero que sai desembalado para uma grota funda chegando na beirada da inclinação bufando e fungando sem ar, com as lentes dos óculos embaçadas , vê o animalzinho correndo ladeira abaixo desviando desengonçadamente de troncos. A inclinação é muito forte o tatu tropeça e cai desconjuntado barranco abaixo. “Parece um mini-saco de batata rolando” depois de capotar por quase dois metros alguma coisa deu errado. O tatu não retorna a corrida, parece se arrastar. Quebrou alguma coisa. “Se ele partiu a coluna fica mais fácil, tenho é que chegar perto” Vagarosamente e com muito cuidado começa a descer a ribanceira. Uma mão usa pra se escorar nas árvores, com a outra segura pelos canos a espingarda. A bandoleira agarrou num galho. Puxa com força e o zarelho acaba abrindo. “Depois arrumo isso”. Arranca a bandoleira do zarelho que sobrou, tudo isso sem despregar os olhos do tatu que fica tentando se arrastar. Já está a oito metros da pequena vítima agora indefesa. “Ah é a perna traseira, acho que quebrou”. Vendo que seu fim se aproxima, o tatu sabe-se-lá como, consegue se arrastar com alguma intensidade até a borda o barranco. Num ultimo esforço de orgulho e arrogância, se atira daquele alto. Atrás dele aquele que mirava e estava pronto para atirar. Fala um palavrão em auto e bom som. “Que desgraçado, vou ter que descer lá em baixo pra buscar essa praga” Chega à beirada e descobre dali onde o tatu estava antes do suicídio, não havia o fim do morro e sim uma queda de uns nove metros. Lá do topo fica pequena a figura do Gilberto. Lá do auto, olha bem para baixo. Do penhasco e de suas rochas castanhas sobressaem em agudas pontas negras numa inclinação de quase noventa graus. “É... Vou ter de dar a volta... Tomara que não tenha estourado a barrigada caindo dessa altura, se não, vai ser uma perda de tempo descer lá pra baixo”. O calor aumenta, o sol sobre. Ele tira o casaco, mas mesmo assim está suando em torrentes, com muita dificuldade por causa das pernas curtas vai descendo a ladeira e contornando as pedras. Quase uma hora e trinta andando. Senta na pedra toma um gole do cantil de alumínio. Quase 11 horas da manhã. “Essa encrenca toda por causa de um tatuzinho. Mas tá bom; melhor do que ficar em casa.” Com um gemido, se ergue da pedra com as pernas doendo de tanto andar, prossegue agora já no fundo da pedreira. À sua esquerda se ergue o paredão rochoso a direita continua uma íngreme caída mais pra dentro do vale ainda. Já é possível ouvir a cachoeira que fica bem no meio da mata e córrego não deve estar a mais de 200 metros daquele ponto. “Ao menos já vou poder limpar ele aqui mesmo. Isto é, se é que vai dar pra aproveitar alguma coisa.” Prosseguiu com a caminhada. Escutava os passarinhos, A coisa de uns quinze metros do lugar onde havia caído o tatu, havia um descampado grande onde o chão era apenas recoberto por um tapete de folhas. Até coçou os olhos não podia acreditar naquilo que estava vendo. Pôs os óculos de novo e espremeu os olhos a medida que andava para apurar a vista. “Não, não pode ser isso”. Uma jaracuçu de mais de dois metros e meio estava tentando engolir o tatu. Foçava e esfolava a cara contra o tatu tentando fazer ele descer goela abaixo. Uma voz na sua cabeça soou: “Sai daí!” Entretanto, quase hipnoticamente continuava se aproximando daquela cena horrível. A cobra quase toda preta babava e guinchava seu couro retinindo de tão esticado para fazer a presa entrar na bocarra. Aquilo não era normal. Fios de saliva e veneno escorriam da boca da serpente. Não conseguia mais se mexer estava preso e a mata se fechava em torno dele. Um forte cheiro de decomposição impregnava o ar. Do meio da pedreira, saiu outra cobra. Quase tão grande quanto a primeira. Rastejando ela se dirigiu para o meio da clareira. Geraldo estava engessado ali. Sentia o nariz escorrendo, mas nem conseguia mover o braço para passar o braço nas narinas. A boca aberta vendo aquele animal enorme se locomovendo em direção ao outro que tentava se alimentar. O ar parecia ficar cada vez mais grosso, pegajoso, um calor anormal tomava conta do ambiente, parecia se afogar no próprio suor. O cheio de carniça se misturava com o cheiro do mato e com o odor da terra. Um gosto metálico. “O que é isso? É sangue?” Cuspiu um filete de sangue lhe saiu da boca junto com a saliva. No auto, na copa das árvores passa uma sombra. Vira o pescoço pra cima. Outra cobra, como um malabarista, desliza pela copa das árvores essa também é anormalmente grande, deve ter quase três metros. Um farfalhar à suas costas. Vira pra ver. Atrás de si sai uma outra jaracuçu. Agora entende. Está sendo cercado. Mais e mais cobras surgem. Agora de diferentes espécies. Cascavéis partem do fundo do folhiço no chão, pequenas corais, saem por entre as pedras. Está em meio a um círculo sibilante de presas e escamas. As cobras sibilam algumas aprecem mirá-lo com sorrisos deformados. Sombras tomam o céu. São urubus que chegam e se acomodam no alto da pedreira mirando aquele ritual dantesco. O sibilar dos répteis torna inaudível qualquer outro som. São centenas, talvez milhares se contasse também os filhotes de cobra. Pequenas cobras pretas rastejam por cima dos seus pés, são filhotes da cobra capitão-do-campo, a boipeva. Os urubus normalmente silenciosos começam a emitir um som, parecem rir. O som de suas asas provocando vultos no ambiente faz com que um arrepio lhe percorra a espinha. A arma cai no chão com um som de folhas se partindo. Os urubus riem com ainda mais força. Repentinamente, os animais se silenciam. Solenemente com um rastejar lento uma urutu-cruzeiro se dirige para o meio de todo aquele círculo de cobras. Ela se ergue como se fosse dar um bote e começa a sibilar alto. A garganta dele fica seca, tenta cuspir de novo, agora lhe caem da boca um dos dentes molares e algumas pedrinhas de sangue coagulado. Um liquido quente lhe escorre o ouvido esquerdo. Passa a mão que treme por ali e o líquido viscoso é também sangue. “Vou morrer.” A Urutu que sibilava no meio do círculo, olha pra ele e ele a ouve dentro da sua mente. “Pode ter certeza que vai”. O urubus riem mais alto. Um deles se atira do alto do penhasco voando, vai em direção ao rosto de Geraldo. Que nem se move devido à catatonia na qual se encontrava. O animal voador lhe arranha a testa com a enorme garra negra. Escuta: “É apenas um carinho nesse lindo rosto.” As aves riem mais ainda. As cobras bufam, rindo também. A cobra-chefe dá uma ordem e todas se voltam na direção do caçador. Pra ele, elas se dirigem. Ele agora parado e sem arma, é apenas um animal, como elas também o são. É um animal ferido, que agoniza de uma doença que desconhece. Está condenado ser envenenado por milhares de presas e devorado por aves de rapina. “É esse teu destino caçador?” É a pedreira que fala agora uma voz que emana autoridade. “É esse teu destino? Sou eu quem lhe pergunta.” “Quem fala?” Ninguém responde as cobras se aproximam, passam a lhe picar e morder as pernas. A dor lhe invade o corpo o veneno corre pelas veias das pernas e ele cai no chão sussurrando áis de dor. Reza para salvar a alma porque o corpo já não tem salvação, ele sabe. Retorcido em posição fetal, Geraldo vê o sol sendo escurecido por uma nuvem. Os óculos já haviam lhe caído da cara que inchava feito um balão. Um dos olhos salta do rosto com o olho esquerdo ele vê o globo ocular rolando no chão com os nervos ainda dependurados na parte de tás, parecia um ioiô com a cordinha ainda dependurada. Agora ele já não sente mais dores, do alto flutuando sobre a cena, percebe o espetáculo de seu corpo sendo picado pelas cobras e devorado pelos urubus. O rosto sem olhos, ossos sendo descarnados, pelos bicos negros e afiados como navalhas. Tudo humanamente desumanizado, lá embaixo de algo que já não mais lhe pertence. “Deves voltar.Vai voltar para que não me firam” Não queria voltar porque estava feliz ali, fazia já sentia que fazia parte de tudo aquilo, daquele “Maior”, que ali estava. Mas teve de voltar. Uma grande escuridão teve início. O sol ficou encoberto. Não se via nada. Acordou caído no meio da clareira. Sacudiu a cabeça tentando entender o que havia acontecido. Ficou apalpando o próprio corpo. Não havia nenhum machucado exceto um pequeno aranhão na testa; Os óculos estavam caídos ali do lado. Colocou-os. Olhou pra um lado e para o outro, mas não conseguia encontrar a arma. “Não lembro... Acho que caí...” O embornal estava ali, com tudo no mesmo lugar, só a arma tinha sumido. O tatu havia desaparecido também. Estava meio zonzo, com a “cabeça leve”. Sabia só que tinha de voltar para o carro. Olhou o relógio e já eram duas e trinta da tarde. Com certa facilidade subiu o morro e fez o caminho de volta, sem pensar muito no que fazia. As pernas não lhe pesavam. Não queria voltar pra procurar a arma. Não sabia o porquê, mas não queria voltar lá embaixo. “O que tinha acontecido mesmo? Ah é! Acho que escorreguei e caí na pedreira” Chegando ao fusca, guardou tudo percebeu que as roupas estavam muito sujas e tinham alguns rasgões. “Deve ter sido do tombo” Deu uma última olhada na paisagem visando os contrafortes de uma serra lá longe com seu azul escuro contrastando com o céu sem nuvens. Foi-se embora. Fusca na Br, em uma hora e meia estava de volta a cidade. Estacionou na rua debaixo. Ligou de um orelhão pra avisar a mulher que chegava daí a pouco. Ela parecia preocupada. Mentiu: “Não, Dodora, tá tudo bem, eu demorei porque acabei me perdendo no mato. Ela xingou. “Desculpa, não, fica tranquila, eu não vou sozinho mais não... Daqui a pouco e estou chegando... Não, vou só passar pra deixar umas coisas que peguei emprestadas... Não! É claro que não vou passar em bar nenhum! Que isso?! Não, estou enrolando ninguém... A ligação está ficando ruim. Até mais querida.” Quando pôs o telefone do orelhão no gancho, imediatamente teve um flashback do que tinha de fato acontecido. Geraldo ficou uns dois minutos estático olhando pro orelhão sem se mexer, assustado com as próprias lembranças. Mas esqueceu tudo de novo. Foi tirado do tempestuoso devaneio com um cutuca no ombro. Sacudiu a cabeça e se virou. _Uai Chiquinho está perambulando aqui em baixo? Chiquinho era um velhinho, morador de rua, habitava o espaço em baixo da marquise do fórum. O Geraldo vivia lhe dando balas, comida e cigarros quando encontrava ele saindo ou entrando para o serviço na repartição. Era estranho encontrá-lo ali, quase não sai de perto do fórum. Quase nunca falava e apenas fazia gestos. Pareceu não entender a pergunta de Geraldo e fez um gesto indicando que precisava de isqueiro para acender o cigarrinho de palha. Ainda meio avoado, o Geraldo custou a compreender: _Ih Chiquinho não sei se tenho fogo aqui, péra aí. Começou a apalpar os bolsos e achou uma caixa de fósforos semi-vazia dentro do bolso da camisa.“Uai que estranho nem lembrava desses fósforos aqui.” Sacudiu a caixa. Abriu-a. Tinha só uns 4 palitos lá dentro. O senhorzinho negro de barba branca e grandes olhos amarelados fitava ansioso, enquanto esperava receber, daquele “Prometeu” dos tempos modernos lhe entregar o tão necessário fogo. _Ah, toma aqui Chiquinho pode ficar com a caixa. Deu ao homenzinho a caixa. O pequenino velho habitante da cidade fez que sim com a cabeça em sinal de agradecimento e saiu andando com seu saco nas costas. “Que será que esse desenfeliz tá fazendo aqui pra baixo? Nunca sai lá de perto da entrada do fórum...” Bem, tinha outras preocupações além de pensar no georeferenciamento cotidiano de malucos. Tinha que ver se a turma já estava no boteco pra contar aquilo tudo. “Aquilo tudo o que mesmo?” Tinha medo de estar ficando doido, tão doido, ou mais do que o Chiquinho. “Fico lembrando e deslembrando as coisas que troço!” Começou a subir a íngreme Rua Brasil correndo pra chegar ao bar. Subiu tão rápido que assustou o Bruno dentro da alfaiataria. Que subiu atrás pra ver o que estava havendo. O Tião que viu tudo também foi para o bar do Teixeira largando o serviço na obra. Só que quando chegou ao boteco e se sentou para tomar um copo de água que o Teixeira arranjou, esqueceu o que ia falar. Ofegante virou a água de uma vez só. _Mais um copo? _Não, não Teixeira ‘brigado._ respondeu ainda ofegando sentado na rangente cadeira de metal. “O que é que eu ia contar mesmo?” Nisso o Bruno entrou e perguntou o que havia acontecido e que correria era essa. _Eu vim pra cá pra ver se encontrava você, mais o Tião, pra contar um negócio... Mas me deu um branco._ Coçava a cabeça tentando puxar do fundo do cérebro o que era pra falar. _Não te vi hoje cedo...’Ocê não foi trabalhar hoje? _Não, eu tirei folga, troquei com um cara, vô pra lá é domingo tomar conta lá de madrugada._Ainda meio em dúvida coçando a cabeça continuou_ Acabei dando uma volta fui ver se caçava uns tatus... Nesse momento o Tião entrou, como sabemos, tropeçando numa das mesas e cortando a conversa com seus xingamentos. A conversa foi progredindo, sem que Geraldo lembrasse o motivo da sua própria correria, no meio de uma frase lembrou de tudo: _Então... É isso que eu ia falar. Na hora que desci do fusca ainda tava muito escuro, não era nem 5 horas... estacou a frase aí e não falava mais nada embasbacado e assustado com o turbilhão das próprias memórias. _Ô Geraldo continua, vai ficar aí olhando pro tempo? _Hein? Ah é. Como eu tava falando procês eu cheguei no mato era 5 horas e ainda tava meio escuro... Mas o Tião ainda na porta percebeu alguma coisa: _Peraí olha lá que fumaça é aquela ali ó?! _Uai! Que que é isso?! Os três saíram na porta pra ver uma nuvem de fumaça preta que vinha da parte de baixo da cidade. _Liga o rádio, liga o rádio! Barulho de estática, achou a emissora no AM :“.. estão todos chocados, muita gente cerca o local, é impossível imaginar o tamanho do prejuízo! As chamas já consumiram metade do prédio. Por sorte o expediente tinha terminado a cerca de meia hora e haviam poucos funcionários no interior do Fórum Professora Solange Andrade em nosso município. O nosso repórter Adalberto Campos está no local:” “Inácio, o cenário é caótico, estou no quarteirão mais próximo daqui, por causa da fumaça está tudo escuro, a polícia isolou o local. Estou vendo os moradores da vizinhança saindo de suas casas por causa da fumaça. Ninguém sabe a origem do fogo. A polícia informou que bombeiros do 34º Batalhão da cidade de Abre Campo serão deslocados para tentar conter o fogo.” “Assustador Adalberto que descrição terrível!” Da porta do bar os três em silencio permaneciam contemplando a fumaça enquanto o rádio cuspia mais informações sobre a situação... Ninguém falava nada. O Geraldo de novo esqueceu o que tinha pra contar. Nunca mais se lembrou. Ninguém perguntou mais nada também. De vez em quando tinha uns sonhos esquisitos onde conversava com as cobras. Epílogo: Recortes do Jornal Manhã Jequeriense Jornal Manhã Jequeriense, 26-04-94: “O grave incêndio que tomou conta do fórum de nossa cidade, não causou vítimas fatais. O segurança Mauro Araújo Siqueira teve apenas algumas queimaduras no braço, mas já se recupera em casa, junto de sua esposa. Em conversa com nosso repórter Cláudio Andedotto, o vigia revelou que não conseguiu debelar o incêndio que teve início na sala de arquivos na lateral esquerda do edifício. Ainda segundo o vigia, havia um indigente com problemas mentais, conhecido por Chiquinho que habitava próximo daquele ponto, logo abaixo de uma marquise. Mauro nega a possibilidade de Chiquinho ter provocado o incêndio. Segundo o vigia, todos conheciam Chiquinho e sabiam que não podiam lhe entregar isqueiros ou fósforos, porque ele tinha dificuldade em usar esses objetos. O indigente permanece desaparecido desde o fatídico dia da tragédia. O vigia está grato por ter se safado e será pai em breve, mais um motivo de alegria [...]”. Jornal Manhã Jequeriense, 16-05-94: “A queima dos arquivos no Fórum Professora Solange Andrade, pode atrasar em mais de um ano o licenciamento ambiental da Mina do Cateto, no distrito de Campo Belo, que fica na comarca de nossa cidade. Os dirigentes locais da Vale do Rio Doce lamentam o ocorrido e dizem que o processo deverá ser reiniciado em breve”. Jornal Manhã Jequeriense, 28-11-94: “Tragédia: Técnicos da Vale são soterrados enquanto faziam levantamento topográfico em Campo Belo. O topógrafo Ivoney dos Santos de 40 anos e seu assistente, Fernando Sampaio do Nascimento de 27, foram atingidos por rochas enquanto faziam um levantamento na área conhecida com “Pedreira” na Mina do Cateto. Mais informações na página 25 dessa edição”. Jornal Manhã Jequeriense, 30-11-94: “Uma reviravolta no caso Mina do Cateto. Após o acidente relatado por nós ontem, quando bombeiros faziam o resgate dos corpos do Topógrafo Ivoney dos Santos e do assistente de topografia, Fernando Sampaio, acidente esse, que levou o cabo Elias Silva para o hospital com uma fratura exposta na perna e o soldado Gilson Simões com ferimentos leves, mas muito abalado psicologicamente, cogita-se a interdição do licenciamento ambiental devido a instabilidade do solo local.” Jornal Manhã Jequeriense, 07-01-95: “Mais uma surpresa envolvendo a Mina do Cateto: Em vistoria da área técnicos do IBAMA encontraram uma caverna local, com ossadas humanas. Legistas do IML, de nosso município foram ao local e afirmaram que se trata de ossadas muito antigas, talvez tenham mais de um século. Artefatos indígenas encontrados em meio aos ossos parecem colaborar para essa hipótese. A reportagem completa do misterioso caso nas páginas18-19 dessa edição. Jornal Manhã Jequeriense, 26-08-96: “Mais um capítulo do caso Mina do Cateto: Após a conclusão do relatório técnico o IPHAN (Instituto do patrimônio Histórico e Artístico Nacional), afirmam que as ossadas fazem parte de um complexo arqueológico local. Eles acreditam que se trata de um cemitério indígena pertencente a tribos Cataguazes que habitavam minas Gerais e foram exterminados pelos portugueses no século XVII”. Jornal Manhã Jequeriense, 26-08-98: “Quatro anos após a tragédia da Mina do Cateto e a descoberta do “Sítio Arqueológico do Cateto”, Vale do Rio Doce desiste de explorar novamente a área, que será transformada em reserva ambiental. O governo diz que por hora não há como custear um estudo para o sítio arqueológico local”. Jornal Manhã Jequeriense, 17-08-2001: “Encontrado o jovem universitário que havia feito uma trilha na Reserva Ambiental Mina do Cateto. O jovem foi encontrado semi-consciente ás margens da Br-040, no quilômetro 216. Ela estava desidratado e apresentava um quadro de confusão mental. Reportagem completa na página 06.” Jornal Manhã Jequeriense, 14-09-2002: “Vale fez o cercamento completo da área da reserva do Cateto, em Campo Belo. Depois dos que o jovem universitário Willian Ribeiro, se perdeu em agosto do ano passado e teve de ser internado em Barbacena para tratamento mental, a mineradora decidiu aumentar a segurança na área. O médico, Dr. André Oliveira que tratou do jovem no hospital psiquiátrico relata um quadro grave de estresse pós-traumático. Dr. André ainda afirmou que dificilmente Willian conseguirá recobrar o uso e suas faculdades mentais normais.” Jornal Manhã Jequeriense, 26-08-08: “História de superação: Willian Ribeiro, conhecido por ter se perdido enquanto fazia uma trilha na Mata do Cateto, tem alta hospitalar após seis anos de tratamento. A família do jovem comemora a alta hospitalar. A mãe de Willian, Maria Constância celebra a data e revela um pouco sobre o novo cotidiano do jovem:” “Ele está, recuperado! Todos estamos muito felizes, com o retorno dele para a casa. Agora Willian vive de fazer artesanatos, a arte virou a vida dele tadinho. Aprendeu a mexer com argila no hospital, fazendo terapia ocupacional e ficou muito habilidoso.” O jovem, de fato, habilmente molda em argila, imagens realísticas de impressionantes de animais apresentando uma peculiar preferência por esculpir serpentes” [1] Na referida região normalmente se caça tatu com armadilhas como de praxe por todo país. Caçar à escuteira significa usar espingarda e à noite tentar ouvir o tatu pra matá-lo a tiro. Perigoso e pouco eficiente, esse sistema era empregado por alguns caçadores que não empregavam armadilhas ou cachorros e sim, o próprio ouvido. Muitas vezes preciso sair pra caçar sozinho pra tentar evitar o fogo cruzado que à noite poderia ser letal. A chance de se machucar correndo no meio do mato a noite era bastante grande quebrar uma perna ou ser empalado por um toco quando se cai, eram probabilidades que faziam esse sistema ser desconsiderado pela maioria dos caçadores [2] prateleira [3] Fisga: Instrumento com uma ponta semelhante a de um arpão empregado na caça de alguns animais. [4] Corruptela de vegano. [5] Corruptela de envergar, dobrar. [6] Orquídeas e bromélias que não são plantas parasitas, mas são assim conhecidas por muitas pessoas nessa época e particularmente na área onde se deram os “fatos.” Meandros da Pedreira.pdf
  2. Valeu Maurício, estou sempre lendo suas história incríveis aqui também. Obrigado!
  3. Ô Seu Domingos tudo bão?! Muito obrigado! Bem, eu sou de Lafaiete é bem distante de Alfenas, mas eu li esse causo, escrito pelo senhor, acho que tem uns dois meses que li mais ou menos. Achei muita graça na história inclusive. Aqui mesmo deu-se um fenômeno parecido, numa lagoa chamada "Água Preta" onde aparecia uma luz misteriosa, isso devia ser pelo início dos anos de 1990, mais ou menos. Enfim, é uma história longa... Sei que até peregrinação teve pra ir ver a tal luz, a coisa acabou sendo caso de CEMIG... Mas eu sou muito mentiroso, recomendo que ninguém acredite nos meus causos não. Faço eles com a receita na medida: Uma colher de chá (rasa) de verdade para 28 conchas de sopa de mentira. Grande abraço! Meu muito obrigado mais uma vez.
  4. Turma tudo bom? Espero que sim. Vou colocar aqui uma historinha, já aproveitando para agradecer a todo mundo que também aqui posta um causo, que como diz o povo: "ajuda a distrair". Meu muito obrigado a todos vocês que passaram aqui pra contar uma história, deixar um causo, ou aqui deitar um poema. Obrigado eu não estava sozinho enquanto lia as suas histórias, estava muito bem acompanhado por vocês. Uma abraço do seu colega Bolão, daqui, do interior de Minas. À Meia Luz A rua era extremamente cumprida e retilínea, a escuridão baça da noite se matizava a iluminação alaranjada dos postes. A opacidade nevoenta do ambiente não era propriamente provocada pela neblina, era uma mistura do sereno noturno com a fina poeira levantada pelos automóveis. Os postes perfilavam homogeneamente dos dois lados da via, fincados nas calçadas mal cuidadas, cheias de buracos e com ervas daninhas formando tufos, dando ainda mais a impressão de desleixo. A rua era povoada por pequenos bares, quase todos mal iluminados, apinhados àquela hora, tendo alguns até mesas espalhadas na caçada, pelo lado de fora. Havia também, intercalando os botecos “copo sujo”, barbearias e açougues compondo assim aquela parte da urbe. A transição entre estes três tipos de comércio, bares, açougues e barbearias não era propriamente visível, era um tanto quanto “oufável” se é possível o neologismo. Das barbearias, mesmo fechadas àquela hora, se desprendia um cheiro forte de espuma de barbear vagabunda; O cheiro quase a tornava sensível ao tato: branca, densa, sempre dentro de uma pequena vasilha de alumínio encharcando um pincel de barba velho. Dos açougues, havia na melhor das hipóteses cheiro de carne fresca. Das carnicerias maiores, aí havia o cheiro nausebundo de queijos velhos e carne já passada, um cheiro que ficava entre o azedo e o metálico do sangue. Naquele horário o odor predominante era o dos bares. É um cheiro peculiar e para quem já o sentiu anteriormente, quase nostálgico. É uma mistura curiosa, predomina o cheiro da fritura; um cheiro de fritura velha, logo esse cheiro se mistura com a cachaça que corre solta à nos botequins àquela hora. Finalmente, para definir o aroma há no fundo de tudo isso há alguma coisa de balas ou doces que também são vendidos e ficam armazenados na parte de baixo dos balcões de fórmica envidraçados. Andando por ali especialmente assim, à noite, ainda é comum receber um ou outro “aerosol” de fumaça de cigarro no rosto ou sentir o cheiro denso, de petróleo que sai do escapamento dos caminhões à diesel, que movimentam ainda a rua neste horário, transportando carvão ilegal, proveniente de áreas onde possivelmente o desmatamento foi feito sem autorização, o fato que leva estes caminhões andarem só depois que escurece. Os frequentadores da rua são notívagos, quase nove da noite, por isso já havia certo burburinho. Resumidamente, com a escuridão apareciam operários, pedreiros com o rosto queimado pelo sol, chapas de caminhão (verdadeiros estivadores) pilhas gigantescas de músculos, caminhoneiros ostentando barrigas proeminentes indelevelmente de bermuda e chinelo, aposentados já idosos também frequentadores do lugar. Gente pobre, de cor pardacenta, nunca branca o suficiente pra parecer rica ou suficientemente limpa perante as demais classes sociais para ser-lhes permitido frequentar os ambientes da “gente de bem”. As pessoas papeavam animadamente, encostadas nos balcões ou displicentemente sentadas nas cadeiras; as mesas repletas de copos de cerveja e garrafas pela metade. Havia sempre o som de risadas escandalosas, etílicas; a conversa era alegre vez ou outra embalada pelo som de algum rádio ou imiscuída com o som das televisões ligadas, embora, ninguém estivesse prestando atenção seja na música seja nas notícias lidas pelo âncora do jornal. A rua era um espetáculo, que a maioria das pessoas não gostava de assistir: Um bando de gente mastigada pela vida que por isso ganhou essa aparência feia, que fazem virar o rosto, as mocinhas que passam de carro com os namorados. As travestis e prostitutas eram as que mais chocavam afinal de contas, por mais que estivessem encravadas naquela massa de gente vagando pelos botecos, sempre suas roupas bastante chamativas e sua dualidade mal compreendida, ofendia o senso moral de quem tem uma visão unilateral do que é “o certo”. Para essas pessoas, aquilo era errado, muito errado. Aquele é realmente um bom lugar para as pessoas de classe média se concentrarem ainda mais na tela do celular e se esquecerem do que as circunda: Ao fim e ao cabo, aquela realidade oferecia aos olhos apenas uma paisagem humana dantesca, acre; feia mesmo, que em nada se parece com os glamorosos filmes de terror hollywoodianos. O terror à brasileira não é tão bonito, porque é mais real. Por ali ele ia caminhando tropeçando naqueles passeios esburacados, se desequilibrar era uma regra. Mas não tropeçou. Finalmente chegou à frente da casa velha. Viu pela fresta daquela porta de madeira com sua tinta verde descascando, aquela luz amarelada que irradiava de uma lâmpada incandescente que pendia precariamente pelos fios do teto de laje. Ali ela iluminava o corredor onde no chão ficava o hidrômetro azul. Empurrou a porta e foi entrando, pisando no chão de ladrilhos de cimento, sentindo que havia areia da rua na sola dos sapatos. Bateu um pouco os pés para fazer a areia sair. O piso, branco não era; na verdade pelos anos estava bem encardido, todo amarelado, quase creme, a cor marrom dos motivos geométricos que decoravam o piso estava falhando e em alguns pontos. O piso tinha sido branco um dia, há muito tempo, quando ele ainda era criança. Ainda se lembrava bem. Entrou e viu, lá no fundo, a coberta de telhas de amianto, outra lembrança da infância. Lá, perto do tanque estavam os dois: Um sentado pachorrentamente e o outro em pé de frente para o tanque de lavar roupa, mexendo em algo dentro do tanque. Viraram-se para ele surpresos, logo reconhecendo a visita inesperada. O visitante acenou com a mão e ouviu de volta um cumprimento semi-berrado: _Opa meu filho! Não é possível! Seu pai não vem? Meneou a cabeça negando. E ouviu de volta _Tá bom assim mesmo, só de você aparecer aqui, já vale uai! Sorriu para os dois. Sorriram de volta. Jogou a mochila da firma em cima da mesa de plástico Soltou o corpo despencando sentado na cadeira e fez um muxoxo expressando cansaço e relaxando o corpo. Finalmente falou: _Poxa Seu Luiz há quanto tempo hein?! _É meu filho tem uns três anos não tem? _Tem sim, acho que tem mais..._ Observou o velho. Seu Luiz era a figura central daquela cena: Camisa verde desbotada, com metade dos botões abertos, mostrando o peito largo. Uma barriga saliente e uma altura considerável de quase um metro e oitenta. Os óculos de lentes esfumaçadas sobressaiam, a armação prateada contrastando com a pele morena e queimada do idoso. O rosto retangular com um queixo largo, muitas rugas na pele que mais parecia um couro. Couro esse semelhante ao dos desgastados mocassins que usava junto com aquela bermuda jeans furada cheia de bolsos do velho Ele era a metassíntese do sujeito parrudo com a voz forte e egolorada. Todos da turma o conheciam. Antes de aposentar era peão de obra, um verdadeiro touro pra trabalhar, coisa que era denunciada pelos braços ainda musculosos e pelo busto larguíssimo que ainda sustentava apesar da idade de setenta e dois anos. Na mão, tinha uma faquinha velha de cabo de plástico azul, que estava usando para limpar os lambaris, descamando-os e lhes tirando as vísceras. O cheiro de peixe fresco impregnava o tanque e atmosfera embaixo da coberta. Hora ou outra, parava a limpeza pra tomar um gole de cerveja da lata imundiçada pelas pequenas escamas dos peixinhos. O rapaz se levantou, esticou o pescoço e mirou do tanque de lavar roupas: _Seu Luiz quantos vocês pegaram?_ vendo o bojo do tanque com mais de 30 lambaris e chatinhas e ainda uns três carás. _ Nós pegâmo uns quarenta e cinco, quarenta e oito, num contei assim certinho não.. Eu dei ainda uns vinte pra minha sobrinha fazer farinha pro menino dela._ O jovem fez uma cara feia parecia se lembrar da situação. _Ele ainda está com aqueles problemas lá?... _Ih rapaz! O menino vive com anemia, tadinho. Ela corta um dobrado com aquela situação. Mas também, ela foi envolver com vagabundo; tava esperando o que também?! Quando o cara dá pra ser vagabundo não tem jeito! _ Uai, ele largou ela assim? Eles viviam brigando e tudo... _Largô! Arrumou adêvogado e foi pra São Paulo, tem quase dois anos. Largou ela aqui com o menino. Nem pensão ele paga. Ela tá lá, morando com a mãe dela. Você acredita Claudinho? _ É, tem jeito não... Coitada... Ficaram calados, os dois. Foram interrompidos em poucos segundos pelos sons ásperos produzidos por um isqueiro. Sentado na outra cadeira, do outro lado da mesa, Valmir acendia um cigarro, prendendo-o nos lábios secos de idosos entreabertos e faiscando vacilantemente o isqueiro, duas, três vezes até acender. Tragou, puxou da boca o cigarro prendendo-o entre os dedos e falou: _ O pior é que ela é nova, mas agora, com filho que homem vai querer? Quanto mais naquela situação... O menino fica direto no hospital; precisa de médico o tempo todo. Pode ser a mulher mais bonita que tiver por aí... A menina tem filho com problema, encarar um troço desses? Só se o cara for doido. _Pior que é isso mesmo Seu Valmir. Eu não encarava. _Mas você ainda é novo Claudinho, só se você fosse burro pra entra num negócio desses. Mas, naquela situação?! Nem cara velho, já separado, quer aquilo não. A menina é bonita que chega, mas ninguém encara assumir aquilo não. É ou não é Luiz? _Pior que é! _Respondeu Luiz laconicamente, enquanto, de cabeça baixa, continuava concentrado na limpeza dos peixes. De relance olhou pro Valmir, magrelo, branco, bastante careca todo encurvado na cadeira. Ali já iam bem uns setenta e seis verões: Roupa de político da penúltima eleição, aquela botina preta toda fulminada. Depois viu Cláudio. Novo ainda, magro sem barriga, uns dentes fortes nariz cumprido. Camisa bonina da firma, forte nos auge dos seus vinte e quatro anos. Rapaz estudado. Comparou os dois: “É... O que o tempo não faz (?)...” matutou. Despertou de volta pra realidade. A voz aguda do se fez ouvir novamente: _Mas você ainda está lá pra São Paulo? _Poxa Seu Valmir nem comentei, com vocês tem pouco tempo que eu mudei de lá. Terminei de estudar estou só por conta do serviço. _Engenharia? _Isso. _ Você escolheu bem, tem muita necessidade de engenheiro. Seu pai foi na formatura? _Deu pra ele ir não, o senhor acredita? _Isso acontece. Tem muito tempo que eu não encontro com ele, com seu pai. _Tem mais de quinze dias? _Muito mais! Deve ter pra mais de um mês. Não encontrei com ele nem pra chamar ele para ir comigo e com o Luiz hoje, no córrego. O Luiz é que viu ele outro dia não foi? _Foi isso mesmo. Eu vi ele lá na rodoviária, mas tem tempo também. Deve de ter pra mais de quinze dias. Ele não me viu não. _ Tem tempo que não falo com ele. _Por causa de quê? _Não sei... Tem muitos dias que eu não consigo conversar com ele... Mas... Mudando de pau pra cavaco, vocês não pegaram nenhum bagre, nem que fosse aqueles mandizinho amarelo? _Pegâmo nada! Tava até bom de lambari, só que bagre nem pra remédio. Valmir comum é que é o nome daquele cara que nós encontramo lá? _Lembro não.._pondo a mão no queixo ossudo_ Mas ele pegou uns três mandi prata. Chegou lá escuro ainda... Silêncio novamente. Cláudio aproveitou o fim do papo e já foi se levantando arredando a cadeira e dando uma espreguiçada: _Ó a conversa tá boa, mas deixa eu chegar pra lá. Tá na minha hora. Sinto que a turma já deve estar me chamando lá em casa. Deixa eu subir pra lá. _Dá lembrança o seu pai e sua mãe. _O senhor Luiz disse isso enquanto batia com a mão cheia de escamas nas costas do rapaz. _Bença seu Valmir! _Deus te abençoe meu filho. Aparece lá em casa amanhã. _Amém! Cláudio acenou com a mão e foi embora naquele passo gingado. Saiu fechando a porta. Rapidamente Luiz percebeu que o rapaz aparentemente não havia pego a bolsa. _Valmir corre lá, grita ele, que ele esqueceu a mochila! _Nossa mãe! Deixa eu correr lá pra chamar ele. _saiu desengonçado naquela corrida lenta e atabalhoada característica do idoso. Abrindo a porta e olhando pros dois lados da rua não viu ninguém. “Esse rapaz só anda correndo” Pensou balançando negativamente a cabeça. _Luiz amanhã você entrega ele_ disse enquanto voltava meio esbaforido pra cadeira. _Não, olha lá, ele pegou a mochila sim, a gente é que não deve ter prestado atenção. O Claudinho é um menino bom mesmo né? O Mário deve ter orgulho do filho né? _Ah! Com certeza! Vou ver se a gente combina pra ele e o Mário voltar com nós lá no córrego domingo. Aproveitar que ele tá por aqui na cidade. _ Boa ideia. Amanhã quase sempre encontro com ele na feira e comento pra gente ir lá. _ Não, você vai acabar esquecendo. Aqui, eu tô com o celular aqui na pochete. Vamo ligá de uma vez que aí ele já deixa tralha pronta. Depois você esquece de falar com ele, então vâmo resolvê de uma vez. Com os dedos finos de velho Valmir foi apertando vagarosamente com o dedão as teclas do seu celular pré-histórico. Permanecendo em sua tarefa de costas para a mesa onde Valmir debruçava esperando a ligação ser atendida, Luiz permanecia indo com a faca de uma lado pro outro nas costas do lambari espirrando escamar pra tudo que é lado. Ma alteração na voz do companheiro ao telefone: “Você tá doido Mário? Ele acabou de sair daqui?! Nós conversamos uns vinte minutos com ele [...] “Não Mário, não tem jeito não!” Diz isso quase gritando “O Luiz tá aqui também uai.”[...] Não eu não sabia, nem ele” O que?!! Um mês? Nossa mãe, que desgraça.” Pelo tom da coversa Luiz achou melhor se virar para ver o que estava acontecendo e fica estarrecido com a cena. Valmir com a mão na testa, branco que nem cera, bagas de suor lhe escorrendo pela testa, a mão que segurava o celular tremendo. Enquanto se despede em voz fraca pelo telefone, faz uma cara feia como se estivesse tomando fel. Solta o telefone na mesa, a boca entreaberta, sentindo um gosto pegajoso e amargo. Uma aparência de quem ia vomitar a qualquer momento. Assustado com a repentina mudança e pensando que o Valmir passaria pelo segundo infarto em dois anos pergunta pasmo e deseperado: _ O que é que houve Valmir? Desembucha homem! Você tá me deixando assustado. Tá passando mal? A voz do baixinho sai trêmula quase um sussurro, voz fraca, fraca: _ Você lembra daquele ônibus que tombou vindo de São Paulo há uns quarenta e cinco dias? _Lembro! Ele tomou barranco abaixo, morreu uma renca de gente. Me mandaram até foto daquele trem no celular. Que desgraça! Foi um troço horrível! _começa a sentir mal, suar frio, sente a testa e as costas umedecendo com o suor viscoso. O suor gelado do medo. Fita o amigo sentado ali que continua tremendo, os olhos lacrimejando, não de choro, mas de medo. A meia voz, escuta do companheiro, que nem consegue lhe encarar e olha de cabeça baixa pro chão de cimento: _O Claudinho tava naquele ônibus. Ele morreu. O Mário falou que tem pra mais de mês que ele foi pra São Paulo, enterrou ele por lá em túmulo de parente. Não tinha dinheiro pra transportar ele pra cá, ficou por lá mesmo. Luiz tentou se apoiar com o braço na mesa. Não deu certo, se desequilibrou e sentou de mal jeito na cadeira, largando ali seus mais de cem quilos. A cadeira foi torcendo os pés de plástico e partiu com um estalo. O velho foi caindo desconjuntadamente no chão. A vista ficou turva os óculos caíram do rosto no tombo. Achou que ia desmaiar pela primeira vez na vida. PS: Provavelmente ficou ainda algum erro de português. Perdoem-me, a Tia Creusa lá da escola bem que tentou coitada...
  5. Leandro sempre acompanho o fórum e os tópicos e como sei que você me parece alguém aberto a discussão, tenho certeza que não se zangará por eu desviar um pouco do assunto em questão... Sobre a veracidade da informação, não há o que acrescentar, a própria imagem que você postou resume bem a história. O que eu me pergunto é por que as propagandas de pesca seguem as vezes desafiam o bom senso do mais ignorante pescador. Digo por mim, que nada entendo de equipamentos, e até mesmo eu, leigo absoluto percebo uma incongruência: Por quê um molinete de tamanho 1000 precisa de uma drag de 10kg?! Não vejo como isso poderia ajudar a compatibilizar o equipamento com a vara e o restante do conjunto... (Opinião absolutamente pessoal: Eu com um molinete deste tamanho estaria plenamente satisfeito com uma declaração da empresa como: máximo próximo de 2kg de poder de frenagem... )
  6. Maurício, tudo bom? Nunca pensou em escrever um artigo (ou quem sabe até, sei lá, um livro) sobre a história dos equipamentos de pesca no Brasil? Os pescadores, especialmente os entusiastas do material vintage, acho eu, agradeceriam. Abraço!
  7. https://www.estantevirtual.com.br/livros/eurico-santos/peixes-da-agua-doce/3125757262
  8. Lindo livro. Obrigado Maurício. Recomendo um livro já velhinho contudo bem acessível, que a gente acha facilmente na estante virtual do Eurico dos Santos. Leitura muito divertida e até mesmo atual em alguns pontos. Vale a pena pra quem ainda não leu!
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