Entre para seguir isso  
Mauricio.

Piratas espaciais

Recommended Posts

Essa é do tempo em que eu era doido. Então, deve ser recente. :D

 

Piratas espaciais

 

           As estrelas passam pelo visor da nave como se fossem cometas. Algumas até tão próximas que se pode ouvi-las roçando na fuselagem, riscando a cristalização de pintura que ganhei da concessionária. Mais uma vez estou em missão, uma missão digna dos patrulheiros espaciais. E já não era sem tempo, afinal, estava cansado de passar o dia no bar do clube bebendo os mais mortíferos venenos que já foram batidos em uma coqueteleira deste lado da galáxia.

Essa era a rotina da maioria dos patrulheiros. Logo depois das missões baixávamos no clube e ficávamos contando vantagem sobre quem pulverizou mais piratas naquele mês. Meu escore estava baixo naquela semana e isso era coisa que me deixava deprimido, o que me fez disparar no barman uma ou duas vezes para aliviar a tensão. Por ele tudo bem, que sempre usava colete, e desde que eu nunca esquecesse de deixar sua gorjeta antes de sair, mas isso também estava virando uma maldita rotina.

Que seria quebrada em poucos instantes. Enquanto eu tentava me decidir se bebia mais uma Catarse Verde de Ônix22 ou experimentava aquela nova Explosão Nuclear Com Vinho Branco que estaria em oferta na happy hour do dia,  chegou o mensageiro do Controle:

            - Missão para você, meu querido. My God, como você está H-O-R-R-Í-V-E-L! Bem que eu falei para eles escolherem um outro, mas eles não me ouvem, eles nunca me ouvem, já estou c-a-n-s-a-d-a. E ainda me canso mais aqui de pé, quer fazer o favor de assinar a retirada aqui? E aqui também. Mais esta aqui...pronto... bom, adeusinho, bofe.

            Eu teria atirado nele também se estivesse em condições de me levantar da cadeira, mas naquele momento não estava conseguindo nem achar o prato de amendoins. O Controle Central pegou o hábito de mandar mensageiros depois que descobriu que muitas das mensagens mandadas pelo comunicador estavam sendo rastreadas por terroristas da OLP. E era fato sabido que eles estavam muito nervosos com a falta de serviço depois que a Palestina e o oriente médio inteiro foram desintegrados na última guerra. Ralf, meu co-piloto, estava em melhor situação e pegou as instruções das mãos da bich..., quero dizer, do mensageiro, não sem antes levar uma piscadela do dito cujo. Tive a impressão de que retribuiu, mas devo estar bêbado.

 

 


 

            Já estava na nave e me joguei no assento depois da ducha gelada em que Ralf me jogou, tentando apertar o cinto de segurança com uma das mãos enquanto com a outra  secava o cabelo. Não consegui, pois o pente escapava o tempo todo de meus dedos e não havia mais mãos para segurar o barbeador. Desisti de usar aquela porcaria e deixei de lado, coloquei o meu capacete e ia dar a partida. Ralf riu. Realmente, acho que eu deveria vestir algo também, que peguei do cesto de roupa suja já que tinha esquecido de mandar para a lavanderia.

À minha frente, toda a complexidade de uma nave espacial de última geração. Apertei botões, acionei chaves, olhei milhares de informações nas telas espalhadas, puxei e empurrei alavancas, digitei senhas, cliquei nos mouses, dei alguns tapas no monitor à minha frente que teimava em não funcionar e  limpei o retrovisor com uma flanela. Estava pronto.

Com exceção de um longo zumbido, que indicava que eu não tinha desligado o alarme contra roubo, nada aconteceu. Como sempre, aliás. Como nenhum piloto nunca entendia aquela confusão de relógios, telas, botões e chaves, o Controle achou melhor simplificar tudo instalando um volante, uma caixa de câmbio e três pedais em cada nave, além de um ou outro controle medianamente avançado.

Era uma garantia de que não arrebentaríamos  no primeiro asteróide as caríssimas naves compradas em leasing e que valiam alguns milhões de créditos cada uma, fora o seguro e a licença. Mas quando eu punha o capacete e sentava ali não resistia, afinal, aquilo tudo deveria ter tido alguma função no passado. Me conformei e virei a chave, dando a partida, ao mesmo tempo em que aceitava um copo de sal de frutas das mãos de Ralf, meu fiel escudeiro. No que até comentei:

- Belo esmalte. Verifique o nível do combustível.

- Tanque  cheinho.

- Armamentos?

- Completinhos.

- Suprimentos de emergência?

- Fiz umas comprinhas. Putiz... esqueci o papel higiênico!

Esqueceu! Ele esqueceu! Assim não dava. No entanto, me foi tão difícil conseguir um co-piloto treinado que pequenas falhas são necessariamente perdoadas. Não sei porquê essa gente tinha tanta prevenção em trabalhar comigo. E, mesmo, Ralf foi o único que aceitou esse emprego depois que meu último co-piloto foi recolhido em duzentos e cinqüenta pedaços diferentes na última batalha. Continuei:

- Motores?

- Revisadinhos e funcionando perfeitamente, patrão...

- Lasers?

- Novinhos, novinhos.

- Atmosfera?

- Cada vez melhor, chefinho...

- Certo. Ahnn... poderia parar de fazer massagem nas minhas costas, co-piloto?

Ele sentou, um tanto amuado. Bem, é certo que esses novos assistentes às vezes se ressentem um pouco do stress, afinal, essas missões não são brincadeira. Enfrenta-se a morte a cada esquina do cosmo. Desde que viagens intergaláticas se tornaram rotina é possível tomar o café da manhã em Marte e jantar em Clio III, mas esse progresso teve um preço, se é que se poderia chamar aquela comida de progresso.

E o preço é que onde vai o rebanho, vão também os abutres. Basta escolher o nome da escória e encontrará por aqui. Salteadores, piratas, mercenários, bucaneiros, flibusteiros, ladrões, seqüestradores,  malucos, alienígenas,  assassinos e aproveitadores de toda espécie pululam pelo espaço. E cabe aos patrulheiros a tarefa de varrer essa sujeira para debaixo das estrelas. Engatei a primeira e acelerei.

Com um empuxo incrível que nos prendeu nos assentos a nave foi levada às alturas em um piscar de olhos. Isso é que era potência, os mecânicos tinha feito um bom serviço naquele motor depois que retornei avariado da última batalha. Era pouca coisa, apenas faltava a nave em volta de mim. Infelizmente os motores estavam tão envenenados que quebrou todos os copos do armário e incendiou a fachada do clube, bem como jogou as outras duas naves estacionadas na rua para outro lado da cidade. Partimos.

 

 

             As estrelas continuavam a passar pelo lado como se fossem cometas. Uma até arrancou o adesivo do meu candidato. Por mim estaria tudo bem, que eu não ia votar naquele cara mesmo, mas com isso acabou ficando exposto um buraco na fuselagem que eu tinha tapado com a cara daquele cretino e acontecia que estávamos perdendo cada vez mais oxigênio. *****, teríamos de parar e sair da nave para consertar. Ainda bem que eu tinha mais um adesivo dele no porta luvas. Encostamos no primeiro asteróide.

Ralf perdeu nos palitinhos e vestiu a roupa espacial, se queixando de que o modelo era  h-o-r-r-o-r-o-s-o, saindo da câmara de vácuo com o adesivo já descolado para ganhar tempo. Só que ele se atrapalhou e o adesivo colou em seus dedos. Tentando retirá-lo, acabou fazendo com que ele colasse nas costas das mãos. Girou mais uma vez no vácuo para tentar soltá-lo, mas então o maldito adesivo prendeu seus braços. Podia ver daqui de dentro seus olhos desesperados em contraste com os olhos sorridentes do candidato. *****! Será que tenho de fazer tudo por aqui? Já ia até a escotilha para puxá-lo de volta quando um disparo de laser cortou o cabo que o ligava à nave. O alarme de guerra começou a tocar. Voltei e olhei pela janela. Estávamos sob ataque! Eram os malditos piratas.

            Lamentei por Ralf, que estava agora girando e fazendo propaganda eleitoral pelo espaço infinito, mas eu tinha coisa mais importante para fazer. Não tinha por que se preocupar, ele tinha mais algumas horas de oxigênio e eu o pegaria mais tarde. Se escapasse dessa, claro. Enquanto ouvia os impactos na fuselagem, sinal que aqueles sujos estavam mandando bala sem dó, me atrapalhei com os controles de disparo e ao invés de ligar os lasers da proa acabei ligando a máquina de fazer café. Tudo bem, eu estava precisando mesmo de um, mas duas coisas eram imperativas naquele momento: a primeira, que se eu não conseguisse responder ao fogo ou sair dali imediatamente em poucos segundos a nave se transformaria em um amontoado de cinzas flutuando no espaço. A segunda, onde Ralf tinha metido o maldito açúcar?

            Achei o joystick do controle de disparo e comecei a responder ao fogo. Agora aquela escória veria o que era uma luta. Tinha equipado a nave com o que havia de mais moderno em termos de armamento, o que tinha elevado minha conta com o Controle a mais um milhão de créditos, mas quem é que resistia quando via no supermercado aqueles canhões laser supermodernos quase a pedir que os puséssemos no carrinho? O mesmo com os mísseis,  eu quase podia ouvi-los sussurrando em meus ouvidos quando passava naquelas prateleiras. O computador avisou que eu estava recebendo uma mensagem pela freqüência aberta e liguei o alto falante:

            - Ah ah ah. Ora ora se não é Bruce Star, o patrulheiro mais estúpido deste lado da galáxia. Já faz tempo, ein Bruce? He he he he, achei que tinha acabado com você em Eudora VIII. Lembra de mim?

            Barba Ruiva! Então era ele. Lembrei-me do episódio em Eudora VIII. Foi um dos mais horríveis pelo qual já tinha passado em minha carreira de defensor da justiça. Era verdade que tinha me dado mal em Eudora, tanto que tinha  perdido a nave e eu só consegui sobreviver porque me tranquei no banheiro na hora em que todo o resto se desintegrava debaixo do fogo inimigo. Meu co-piloto não tinha sido tão rápido em encontrar uma revista e ficou esmurrando a porta do lado de fora.

Foi quando o perdi, pobre Max. Creio que ele nem conseguiu ouvir meu grito de que estava ocupado. A nave se desmantelou, mas o banheiro ficou intacto e com ar suficiente para vários dias, embora sem a nave em volta a descarga não funcionasse e só houvesse duas voltas de papel no rolo. Quando me resgataram já estava de saco cheio de ficar lendo sempre a mesma Playboy. Mas me recuperei do trauma e jurei diante daquele vaso que, de alguma forma, o vingaria. A chance agora se apresentava à minha frente. 

 

 

 

 

           - Tome isso, cretino.

            - Ha ha ha, passou longe. Agora vai experimentar meus novos mísseis.

            - Mísseis? Que mísseis tem você, boneca? Passe perfume que vou lhe mostrar o que é um míssil.

            Os disparos se sucediam com tanta potência que os difusores de energia já estavam no limite. Eu já tinha derrubado a antena da nave deles, queria ver como fariam para pegar a tv a cabo de novo. E tinha certeza de que acertei a tubulação de esgoto no último disparo, o banheiro deveria estar sendo inundado neste exato momento. Nem queria imaginar quem seria o primeiro estúpido a abrir a porta com a calça na mão e levar na cara a ***** que fizeram naquela manhã. Mas eles também me atingiram. O último disparo deles quebrou os vidros da estufa e as flores que Ralf tão cuidadosamente cultivava estavam agora se espalhando pelas redondezas. A nave deles começou a se movimentar:

            - Ha ha, belas flores, Bruce. Mas estou sem tempo hoje, uma outra hora a gente se vê, ha ha ha.

            Aquela risada de novo. Maldito Barba Ruiva. Eles fugiam, aqueles pilantras. Mas se pensavam que iam escapar assim tão facilmente estavam enganados.  Liguei os motores e comecei a perseguição. Tinha muito combustível, os motores eram quase novos e estavam em bom estado. Eu já tinha feito todas as revisões na concessionária, fica mais caro mas tem garantia. Eles aceleravam o quanto podiam, comigo nos calcanhares. Disparavam com os lasers de ré e eu respondia ao fogo, acertando alguns dos disparos na traseira deles. Faria aquela nave rebolar um bocado e eles junto. Tomem mais essa, escória!

            Eles fugiam e eu os seguia de perto. Logo estávamos emparelhados, uma posição ótima para que eu pudesse usar os canhões laterais e acabar de vez com eles. Mas o alarme de asteróides começou a tocar cada vez mais forte, o que me alertava que estávamos entrando em uma área lotada deles e isso me obrigou a diminuir a velocidade para que não me esborrachasse.

            Vários asteróides menores bateram na fuselagem. Isso acabou de vez com a cristalização da pintura  e  com o que restava de meu bom humor. Eu estava agora com uma raiva assassina, o que só piorava as coisas para eles. O radar de telemetria, um equipamento de última geração que ganhei no campeonato de truco do clube por ter pego o terceiro lugar mostrou que eles se esconderam atrás de um asteróide imenso. Então, o velho jogo de gato e rato. Essa brincadeira poderia levar horas.

Resolvi que uma abordagem direta seria mais adequada para resolver o caso em menos tempo. Eles achavam que estavam seguros ali. Eu sairia com uma nave de serviço e invadiria a nave pirata, acabando com eles em seu próprio covil. Peguei um micro maçarico no armário de ferramentas. Aquilo era incrivelmente potente para o seu tamanho. Foi um desses que eu esqueci no banheiro certa vez e Otto, meu penúltimo co-piloto, usou achando que era uma escova de dentes elétrica, deixando o teto marcado com uma estampa de seu cérebro e eu sem mais um co-piloto.  

            Regulei o piloto automático para a nave fingir que os procurava pelo campo de asteróides enquanto eu vestia uma roupa espacial e saía silenciosamente. Fiz a pequena nave parar no lado oposto do asteróide e fui rastejando até eles. Os pegaria de surpresa. Comecei a cortar uma abertura no compartimento de bagagens para entrar, apenas para descobrir que eles levavam um carregamento roubado de combustível, que o maçarico prontamente incendiou. Enquanto eu largava tudo e tentava feito um louco correr naquela gravidade baixíssima, a nave explodia me jogando dentro de uma cratera.           

 

 

 

  

           Quando acordei percebi duas coisas. Primeiro, que ainda estava vivo. Segundo, que não seria por muito tempo, já que era naquela cratera que ficava o esconderijo dos piratas naquele quadrante e eu estava atrás das grades.

            - Ora, ora, a bela adormecida acordou, he he he he.

            Na minha frente estava um cara completamente careca e com o queixo mais liso que já vira, usando uma roupa de velho lobo do mar. Era verdade que o espaço era ponto de muitos malucos, mas eu parecia reconhecer aquela risada. Sim, só podia ser ele! Era o maldito do...

            - Barba...ruiva?

            - Não no rosto, estúpido. Mas jamais saberá. O carregamento de combustível que você explodiu era muito, muito valioso, sem falar que toda minha tripulação estava na nave e isso me deixa com muita, muita raiva. Não sabe como é difícil encontrar bons empregados hoje em dia.

             Eu sabia. Tinha perdido meu antepenúltimo co-piloto em uma explosão parecida em um bar na órbita de Io, quando em uma última rodada de daiquiris falsificados de Ômega Nox eu estava tão bêbado que ao invés de acender o cigarro com o isqueiro acabei usando a pistola laser, furando o teto e acertando o posto de abastecimento que ficava no pavimento superior. O pirata continuou:

- Deixei você vivo apenas para que soubesse como vou matá-lo. Olhe para trás.

Enquanto eu olhava, ele puxou uma alavanca na parede. A parede da parte de trás da cela lentamente subia e alguns  tentáculos que apareciam pela abertura me indicavam que algo mais além de mim estava preso naquele covil.

- Ha ha ha. Caso você não tenha entendido ainda, na outra cela existe uma medusa gigante carnívora de Aldebaran XII. E elas são conhecidas por devorarem qualquer tipo de matéria orgânica viva em poucos instantes. Creio que já me fiz entender, ha ha ha ha. Bem, como tenho o estômago um tanto fraco para ver certas coisas,  vou  comer alguma coisa e já volto para ver se sobrou algo, ha ha ha ha.

Se tivesse que ouvir aquela maldita risada de novo ele nem precisaria de uma medusa. Eu estava em maus lençóis. Tinha que achar uma forma de escapar dali antes que a parede subisse totalmente e me revelasse completamente ao animal, mas aquelas grades eram bem sólidas. Olhei para a mesa que estava em frente ao pirata. Alguns dos meus objetos pessoais estavam em cima dela, inclusive meu maço de cigarros. E também o micro maçarico! Tentei um truque:

- Poderia pelo menos me dar um cigarro?

- Ha ha ha ha. Claro, se quer fumar, fume. Será seu último, he he he he.

- Obrigado. Poderia jogar meu isqueiro também?

Ele me jogou o maço e o maçarico antes de sair. Tinha muito pouco tempo agora, mas mesmo assim acendi um cigarro que ninguém é de ferro. Exatamente na hora em que a parede subiu completamente eu tinha conseguido fazer uma abertura nas grades, o suficiente para que eu pudesse passar apertado. Consegui sair, não sem antes perder as botas e as meias para os tentáculos da medusa. Pobre animal, tinha certeza que aquela seria a sua última refeição.

Procurei algo que pudesse usar e encontrei algo que parecia um taco de beisebol na prateleira. Agora seria a hora da vingança. Fiquei esperando o cretino atrás da porta. Assim que ele apareceu limpando a boca com um guardanapo e olhava curioso para a horripilante medusa no que deveria ser um belo ataque de indigestão, fui por trás para descer-lhe o taco na cabeça. Porém, como ninguém é perfeito, não percebi a última bituca de cigarro ainda acesa no chão e ao pisá-la acabei me denunciando. Ele se virou e nos engalfinhamos.

 

 


 

            Rolávamos pelo chão, derrubando praticamente tudo o que estava em cima de prateleiras e mesas. A briga estava encarniçada e eu já podia contabilizar três ou quatro tapas na orelha, dois dedos nos olhos e um chute no joelho, embora tivesse levado um joelhaço no baixo ventre e um cotovelo no estômago. Ele agora tentava alcançar a pistola laser, que tinha escapado de seu cinto, enquanto eu o puxava pelas calças, que acabaram cedendo e mostrando a razão de seu apelido. Ele virou e apontou a arma triunfantemente para mim:

            - Ha ha ha ha. Tome isso, patrulheiro.

            Por sorte, naquela confusão de peças pelo chão o que ele acabou pegando foi a engraxadeira e acabou com minha roupa clara. Não ia deixar aquilo barato e ia fazê-lo engolir seus dentes quando ouvimos aquela voz:

            - Parem! Em nome de nossa rainha, eu ordeno que parem com essa luta.

            A voz soou como se partisse de todos os alto falantes do esconderijo.

            - E quem está falando? - gritou Barba Ruiva, enquanto me arrancava um  chumaço de cabelo e eu o socava no nariz.

- Somos enviadas do planeta Amazona com uma missão. Nosso planeta, infelizmente, não possui mais machos. Temos a missão de encontrar um espécime selecionado e levá-lo para lá. Esse homem terá a missão de repovoar o planeta, cruzando com todas as fêmeas, principalmente nossa rainha.

            - Cruzando? Quer dizer, sexo? - perguntei, enquanto batia na cabeça dele com uma bandeja  e ele me acertava os cotovelos no estômago.

            - Sim, acho que é o melhor modo. Isso, se nossas formas não os assustarem.

            - E qual é a sua forma?- perguntou o pirata, parando momentaneamente com a briga.

            O monitor  ligou e vimos uma mulher belíssima, que para ficar completamente nua não precisaria mais do que soltar os laços daquela lingerie. Mas creio que aqueles seios arfantes não permitiriam isso sem alguma ajuda. Olhei para o Barba Ruiva, soltando o seu pescoço, ele para mim, soltando o meu colarinho e nós dois de novo para o monitor. Perguntei:

            - Sempre se vestem assim?   

- Este é o nosso uniforme de serviço - respondeu ela, fazendo os seios balançarem com a demonstração.

Ia fazer outra pergunta mas ele a resumiu:

            - Todas são assim no seu planeta?

            Ela respondeu:

            - Felizmente não. Somente as mais feias são escaladas para viagens espaciais. As do meu planeta são mais belas. Caso queiram se candidatar, basta usarem o transportador de matéria e virem para nossa nave. Mas aceitaremos somente um de vocês.

            Nos engalfinhamos novamente enquanto tentávamos alcançar o maldito transportador. Rolávamos de novo pelo chão e o que não tinha sido derrubado na primeira rodada o foi agora, como vários litros de alguma coisa que cheirava a combustível. No que ele mordia minha perna e eu enfiava os dedos em seus olhos, os meus notaram o extintor de incêndio ao lado. O peguei com a mão livre, já que a outra estava ocupada batendo a cabeça dele contra o pé da mesa e praticamente o submergi na espuma. Ele largou de minhas cuecas e começou a tossir. Aproveitei para correr até o transportador e o acionei, não sem antes acender um último cigarro e aproveitar para jogar o isqueiro em cima dos produtos esparramados pela sala. O esconderijo incendiava para explodir em poucos instantes.

 

 

 

 

              Eu me materializei na nave alienígena. A mulher que tínhamos visto no monitor estava lá, acompanhada de outras vestidas da mesma forma. Eram belíssimas também e os uniformes semi transparentes mal escondiam seus corpos. Ela me olhou de cima a baixo e comentou:

            - Homens, pfffui... muito bonito. Agora, acho que vai me pedir um whisky.

Notei que deveria ter calibrado aquele maldito transportador de matéria para mandar minhas roupas junto comigo, pois apesar da razão de tanta pressa ser algo que se faz sem elas não ficava bem me apresentar à rainha completamente nú com um cigarro na boca. Mas tinha que disfarçar, já que eu naquele momento representava todos os homens da terra. Resolvi usar todo o meu charme de macho terrestre, disposto a resolver logo a parada. Dei o meu melhor sorriso, cuspi entre os dentes e bati a cinza no tapete, enquanto falava:

- Calma, gatinha, que o papai aqui vai dar conta de suas aflições. Quem será a primeira?

Acho que não deveria ter dito isso, ou pelo menos poderia ter falado de outra forma, pois ela sacou a maior pistola laser que eu já vi e veio em minha direção faiscando de raiva. Cheguei a temer que ela quisesse usá-la como um clister, já que não se poderia confiar que mulheres soubessem manipular corretamente alta tecnologia, mas felizmente tudo o que ela fez foi me desacordar com um disparo de baixa potência.

Quando acordei, estava acorrentado. Ela já não vestia mais aquela lingerie sensual, mas até que aquela roupa de couro preto e o chicote lhe caíam bem:

- Bem, piloto, o computador o analisou e o aceitou como reprodutor. Mas, conforme as leis de meu planeta, os homens tem de seguir uma série de regras. E a primeira é: vista logo este avental,  pegue essa vassoura e limpe esta nave. Foi escalado para servir o almoço hoje. Ao terminar, quero que esfregue a nave inteirinha, por dentro e por fora. Depois, vai limpar a cozinha. Então, e somente então, talvez o levemos à sala de reprodução - disse, tocando com o chicote em meu queixo e o apontando para uma sala que mais parecia uma masmorra. Já ia dizer uma ou duas palavras sobre aquilo tudo quando ela estalou o chicote em meus pés:

- Vamos, mexa esse rabo!

Bem, agora sabia por que os homens daquele planeta debandaram em massa. Mulheres... Tinha que escapar dali o quanto antes. E a chance surgiu enquanto eu esfregava a nave pela terceira vez, já que as duas anteriores foram consideradas insatisfatórias pela comandante. Duas das tripulantes estavam me vigiando de perto. Achei que conseguiria distraí-las com a brincadeira do elefantinho falante, já que aquele avental servia bem como o pano do teatrinho, mas elas não gostaram muito da história e preparavam um disparo de laser em meu traseiro.

Por sorte minha teoria sobre mulheres e alta tecnologia se revelou certa em parte, pois elas se atrapalharam com os botões das pistolas, tempo o bastante para alcançá-las em um pulo e enrolá-las nas correntes. Uma rápida demonstração de legítima violência masculina terrestre com o balde e a escova as tiraram de combate. Arrastei as duas para o armário de limpeza e as amarrei com suas roupas de couro. Elas acordaram nesse instante, apenas para xingarem e se debaterem, tentando morder meus dedos enquanto eu as amordaçava com suas calcinhas:

- Lamento, queridas, mas acho que vou ter de recusar a gentil oferta de sua rainha.- não resisti em lhes dar um último golpe - sabem, estou achando que esses seios estão um tanto caídos. E o que é aquilo ali, celulite?

 Sorrateiramente fui até a saída de emergência, onde sabia que deveria existir uma pequena nave auxiliar. Desacoplei da nave mãe silenciosamente e saí dali, deixando para trás toda uma vida de prazeres com as mulheres do planeta Amazona, bem como uma cozinha inteira para ser limpa.

 

 

 

              A nave tinha pouco combustível e mal consegui alcançar um porto de cargas de caminhões estelares na órbita de Vega III. Não estava com minha identidade de patrulheiro e nem perdi tempo tentando explicar por que estava usando apenas um avental azul com laços vermelhos, pois tinha me lembrado de algo mais importante: Ralf! Ele deveria estar quase sem oxigênio!

Depois de algumas explicações e dois ou três narizes quebrados, concordaram em me levar até os asteróides em que tinha deixado minha nave. Me deixaram nela, não sem antes fazerem comentários sobre como os laços combinavam com minhas nádegas rosadas, no que eu agradeci com um ou dois disparos de laser neles assim que alcancei a ponte de controle. Como não tinha mais tempo a perder com agradecimentos, liguei rapidamente o motor e apontei o nariz da nave para o ponto em que perdi meu co-piloto. O sinalizador de sua roupa estava funcionando e o localizei rapidamente. O pobre do Ralf deveria estar desesperado, pude ver um certo alívio em seus olhos enquanto abria  a escotilha e o resgatava. Comentou, assim que tirou o capacete:

            - Belo avental, chefinho. Preciso de um banheiro, licencinha...

Pelo menos ele não tinha perdido o humor e eu ainda tinha um co-piloto. Não sei como vou lhe dar a notícia de que seus gerânios agora estão espalhados pela via láctea, mas isso será para mais tarde,  tinha chegado a hora de relaxar um pouco. Sim, tinha sido uma missão e tanto. Todos aqueles problemas, os piratas, as amazonas, o relatório para o Controle seria extenso. Me estiquei no assento e enquanto espreguiçava liguei o piloto automático com o dedão do pé e a máquina de fazer café com o cotovelo. Realmente, agora eu não me importaria com uma boa massagem no pescoço. Onde estava Ralf?

 

 

FIM

02/08/00

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Divertido e movimentado! Êita imaginação sem fim! :joia:   :clapping:

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites
2 horas atrás, Mauricio. disse:

Lamentei por Ralf, que estava agora girando e fazendo propaganda eleitoral pelo espaço infinito

:rotfl2: Muito bom! Confesso que ri demais com este trecho acima...

É de sua autoria mesmo?

  • Like 2

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites
1 hora atrás, GMarux disse:

:rotfl2: Muito bom! Confesso que ri demais com este trecho acima...

É de sua autoria mesmo?

18 anos atrás eu era um tanto politizado... :rotfl2:

  • Haha 1

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Nesta época voce já era viciado na telinha assistindo jornada nas estrelas e fã incondicional do SPOCK...e tudo começou quando TU eras pequenininho lá em Barbacena.:assobiando:

Compartilhar este post


Link para o post
Compartilhar em outros sites

Join the conversation

You can post now and register later. If you have an account, sign in now to post with your account.

Visitante
Responder

×   Pasted as rich text.   Paste as plain text instead

  Only 75 emoji are allowed.

×   Your link has been automatically embedded.   Display as a link instead

×   Your previous content has been restored.   Clear editor

×   You cannot paste images directly. Upload or insert images from URL.

Entre para seguir isso  

Parceiros: www.petsEXPERT.pt