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                Acordou no mesmo morro com o sol que crescia seu poder a cada segundo. Achou  estranho, ela nunca dormia longe de seus abrigos. Era prudente entrar logo na mata e procurar um deles. Se levantou. E tropeçou. Tentou se levantar de novo, apenas para cair de novo. Confusa, olhou para suas patas e com olhos apavorados não as viu. O que eram aquelas formas finas e longas? Tocou em seu corpo com elas. O que era aquilo? Onde estava seu pelo? Que pernas longas eram aquelas? Tocou em seu focinho como fazia quando se limpava e não o reconheceu. Onde estavam suas garras? Que patas eram aquelas em suas pernas? O que era aquilo?

               Ela reconheceu sua situação. Tinha visto pessoas na noite anterior e era assim que elas eram. Tentou caminhar de quatro como sempre fez na vida mas aquela forma não lhe pareceu prática e ela logo desistiu. Mesmo assim, tinha de sair dali. Mas como, com aquelas pernas? Então se lembrou das pessoas que viu na cidade. Sentindo um equilíbrio diferente, levantou-se devagar, os braços abertos como a procurar apoio. Aquilo era muito estranho. Agachou-se rápido. Tentou de novo, agora com mais equilíbrio que antes. Esticou o corpo. Sim, era possível ficar ereta.  Agora, o principal. Deu um passo. Devagar. Depois outro. Sim, aquilo lhe pareceu mais fácil. Ela conseguia se equilibrar. Era possível andar. Mas para onde? A floresta? Um abrigo? Para onde?

               Caminhou um pouco ao esmo, tentando se acostumar com a nova situação. Ela agora estava bem mais alta e conseguia enxergar mais facilmente por sobre o capim alto. Viu a floresta logo adiante. Era a melhor opção. Mas, naquele instante, ouviu também outra coisa. Um galo cantava não muito longe, talvez a uns cem metros. Lembrou que estava realmente com fome, ela não tinha se alimentado há quase dois dias. E galinhas eram uma forma de comida, ela bem o sabia.

 

               Isabel acordou em seu quarto como sempre fazia. A luz filtrava-se pela cortina da janela, mostrando que um novo dia iniciava. Virou-se na cama, pensando que poderia ficar mais um pouco. Não. Não poderia. Um misto de sono, preguiça e desgosto de saber que ia ter um dia como os outros passou por sua mente, refletindo-se em seu rosto ainda inchado de dormir. Primeiro banheiro, onde antes de sair deu uma olhada no rosto, esperando que mais nenhuma espinha estivesse nascendo. Depois, tirar o pijama e colocar uma roupa para já estar meio pronta para a escola. Escola. Como detestava escola...

               Ao entrar na cozinha, Isabel ouviu o latido dos cachorros. Abriu o armário, procurando uma xícara e um pires. Será que tinha sobrado daquele bolo? Já estava ficando duro. Melhor não. Ou sim. Sua mãe não faria mais um naquele dia. Teria de ser esse mesmo. Os latidos continuavam, junto com o alarido dos outros bichos. Algum esquilo, ela pensou, como sempre. Ou gambá. Morar em chácara tinha dessas coisas. A vida selvagem sempre dava as caras.  Mas os latidos eram diferentes, como se os cães estivessem também com algum receio. Não eram cães grandes, logo, mais latiam do que realmente agiam. Mas eles deveriam ter acuado algum animalzinho diferente, pensou, que estaria apavorado. Ou pior.

               - Vai ver o que é – disse sua mãe, que entrava naquele momento na cozinha.

               Sim, seria bom dar uma olhada. E, mesmo, ela também estava curiosa.    Abriu a porta da cozinha que dava para o grande quintal, terreiro batido onde galinhas, patos, marrecos, um peru, algumas angolas, pombos e todos os pássaros e animais que não se assustavam e conseguiam se aproveitar da presença humana batiam seu ponto diariamente. E onde os dois cães da chácara faziam seu reino.  Reino esse que agora eles defendiam ardorosamente, cercando e latindo para o baixo telhado que protegia o galinheiro.

               - Rex, Cuca! O que foi?

               Ela se aproximou. E viu que o que eles temiam estava em cima das telhas de zinco, rosnando, mostrando os dentes e olhando para eles com o rosto mais assustado que ela já vira:  

               - Mããããeeee!! Tem uma menina aquiiii!

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A propósito você não é um buraco negro mas sim um poço de luz sem fundo de grande sabedoria. afinal a Nasa sabe que você existe? - mais uma perguntinha: Você possui publicações na Amazon ?

Obrigado e continue este maravilhoso texto,afinal a pandemia está lhe fazendo um bem danado e a nós também através dessa sabedoria compartilhada do amigo .:iCo01:

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9 minutos atrás, Roque Moraes disse:

A propósito você não é um buraco negro mas sim um poço de luz sem fundo de grande sabedoria. afinal a Nasa sabe que você existe? - mais uma perguntinha: Você possui publicações na Amazon ?

Obrigado e continue este maravilhoso texto,afinal a pandemia está lhe fazendo um bem danado e a nós também através dessa sabedoria compartilhada do amigo .:iCo01:

cadê as respostas quanto ao questionamento grande Mauricio?

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Em 21/12/2020 at 12:29, Roque Moraes disse:

cadê as respostas quanto ao questionamento grande Mauricio?

Meu primeiro livro já saiu da editora faz uns 20 anos. Não teve reedição.

 

https://books.google.com.br/books/about/O_legado_de_Souza.html?id=ut3CPgAACAAJ&redir_esc=y

 

Mas achei um aqui:

 

https://www.estantevirtual.com.br/livraria-mar-mediterraneo/mauricio-ramos-tsan-hu-o-legado-de-souza-2498073198

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38 minutos atrás, Mauricio. disse:

Obrigado. peninha que o estado do livro descrito já está degradante na livraria Mar Mediterrâneo. somente 9,00 reais o custo para envio fica mais caro que a obra, 9,40 para postagem. Reedite-o na Amazon...ao menos a leitura pode ser gratuita, e você ganha apenas na leitura de uma pagina.:joia:

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4 minutos atrás, Roque Moraes disse:

Obrigado. peninha que o estado do livro descrito já está degradante na livraria Mar Mediterrâneo. somente 9,00 reais o custo para envio fica mais caro que a obra, 9,40 para postagem. Reedite-o na Amazon...ao menos a leitura pode ser gratuita, e você ganha apenas na leitura de uma pagina.:joia:

Algo a pensar. Acabei postando aqui meu primeiro conto. Caso alguém tenha interesse em lê-lo, aqui vai:

 

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