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Imensidão

 

 

            Tudo que podia pensar era que estava com fome. A caça não fora boa na noite anterior e os outros também se queixavam. Podia ouvi-los à distância, as mesmas queixas dos mesmos conhecidos, aqueles mesmos que se vangloriavam das grandes presas, daquelas que deram muito trabalho para matar e mais ainda para comê-las. Mas não podia ficar pensando nos outros, eu tinha uma barriga roncando, a noite chegara. Aquela escuridão do alto que não vencia a de baixo e breve ela, a luz branca, apareceria. Às vezes ela aparecia, com força. Não como a luz do dia, que é muito forte, amarela, ofuscante, quente, impossível de ser observada, que nos faz descer um pouco mais para não ficar piscando, ofuscados, mas sim, aquela bela luz branca que aparecia apenas quando queria, apenas para nos reconfortar naquela escuridão.

            Já estava escuro mas a luz não apareceu ainda.  Sei que ela vai aparecer nesta noite mas não posso esperar. Meu estômago ronca e tenho que caçar. Respiro fundo uma, duas, três vezes, sempre a mesma rotina. Respiro a  última vez, tranco a narina e começo o mergulho rumo à escuridão de baixo.

            Enquanto desço ouço pela última vez a voz dela. Fraca, suave, inconfundível. Só poderia ser ela mesma, também reclamando da caça da noite anterior, ralhando com o filho, cantando. Fecho os olhos, embora nesta escuridão não faça qualquer diferença e lembro. Seria mesmo o meu filho? Ela me garantiu que sim, porém sei que esteve com os outros. Quando a conheci tive que enxotá-los para podermos ficar a sós. Tive que lutar, me feri. Mas eu me lembro quando ficamos a sós, o mar  calmo, ela me encorajando e cantando fracamente enquanto nos contorcíamos de desejo, procurando a melhor posição para nos conhecer. Eu me lembrava de tudo.

            Continuei descendo. A pressão já estava quase insuportável. Sentia meu corpo se deformando, o sangue saindo da superfície e se concentrando no meu centro. A água era congelante, bem mais que no alto. Me concentrei então em meu coração batendo e me lembrava dela. Senti um movimento fraco no meu lado esquerdo que me alertou e espantou as lembranças. Era um movimento de fuga. Notei a tênue luz, fraca, móvel, quase imperceptível. Não era tão forte quanto a luz de cima, a que aparecia quando queria, mas eu sabia o que significava. Era ela. Finalmente. A caça, finalmente!

            Ela tentou fugir. Me virei para o lado dela, devagar. A pressãoinsuportável, me impedia os movimentos rápidos. Estava muito fundo e sabia que havia muito mais água abaixo de mim, esse era o meu limite. Torci para que ela não descesse mais ainda onde eu não poderia mais alcançá-la e minha barriga continuaria roncando.

            Eu a sentia agora, estava bem na minha frente e tentava escapar o mais rápido possível. Acelerei o mais que podia. Abri a boca e fechei com força, mas só mordi alguns tentáculos. Tinha que morder de novo e rápido antes que seu bico me alcançasse. Ela era grande, tinha quase a metade de meu tamanho e tentava a fuga desesperadamente. Ela sabia que estaria perdida se eu a alcançasse.

            Mordi, mas tarde demais. Durante a confusão de tentáculos tentando se afastar tive de abrir demais a boca, o bico dela foi mais rápido  e arrancou um pedaço de meu lábio antes da mordida final. Eu sangrava na água gelada, mas sabia que isso cicatrizaria em pouco tempo. A água fria espantava a dor, pelo menos no momento, mas é claro que eu lembraria disso por algum tempo. Meu tempo no fundo tinha se esgotado. Tinha de subir. Parei um pouco para saber onde naquela escuridão sem fim era o alto e subi enquanto  comia o mais rápido possível. Perdi vários pedaços durante a subida mas não havia outro jeito, precisava de ar e rápido!

            Finalmente a superfície!  Irrompi rápido, respirei uma, duas, três vezes, profundamente, até acalmar o coração. Acalmar as batidas. Acalmar a mente. Então notei a luz. Ela estava lá. Finalmente ela tinha aparecido. Branca, fria, sem ofuscar como a outra. Fiquei um pouco de lado, respirando e descansando enquanto a observava. Os outros também subiram pois ouvia as mesmas reclamações de sempre, as mesmas cantigas de luta, de ferimentos, de vitória, as mesmas lamentações. Então a ouvi  de novo. Sua voz suave, inconfundível, reconfortante, quase uma carícia depois de um combate. Sentia meu ferimento latejar e a noite apenas começara. Olhei para a luz novamente. Então olhei para baixo, para a escuridão...

MRTH – 1997

 

(Meu primeiro conto. Escrevi esse para a minha namorada, agora minha esposa. O primeiro de uma série de dezenas, talvez uma centena. Minha tática era escrever e entregar a ela. E depois, claro, tinha uma desculpa para ligar para ela à noite. Claro, apenas para saber o que ela achou. Lembro que ela disse que esse estava bonzinho... :rotfl2:)

 

 

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12 minutos atrás, Mauricio. disse:

Imensidão

 

 

 

 

 

            Tudo que podia pensar era que estava com fome. A caça não fora boa na noite anterior e os outros também se queixavam. Podia ouvi-los à distância, as mesmas queixas dos mesmos conhecidos, aqueles mesmos que se vangloriavam das grandes presas, daquelas que deram muito trabalho para matar e mais ainda para comê-las. Mas não podia ficar pensando nos outros, eu tinha uma barriga roncando, a noite chegara. Aquela escuridão do alto que não vencia a de baixo e breve ela, a luz branca, apareceria. Às vezes ela aparecia, com força. Não como a luz do dia, que é muito forte, amarela, ofuscante, quente, impossível de ser observada, que nos faz descer um pouco mais para não ficar piscando, ofuscados, mas sim, aquela bela luz branca que aparecia apenas quando queria, apenas para nos reconfortar naquela escuridão.

 

            Já estava escuro mas a luz não apareceu ainda.  Sei que ela vai aparecer nesta noite mas não posso esperar. Meu estômago ronca e tenho que caçar. Respiro fundo uma, duas, três vezes, sempre a mesma rotina. Respiro a  última vez, tranco a narina e começo o mergulho rumo à escuridão de baixo.

 

            Enquanto desço ouço pela última vez a voz dela. Fraca, suave, inconfundível. Só poderia ser ela mesma, também reclamando da caça da noite anterior, ralhando com o filho, cantando. Fecho os olhos, embora nesta escuridão não faça qualquer diferença e lembro. Seria mesmo o meu filho? Ela me garantiu que sim, porém sei que esteve com os outros. Quando a conheci tive que enxotá-los para podermos ficar a sós. Tive que lutar, me feri. Mas eu me lembro quando ficamos a sós, o mar  calmo, ela me encorajando e cantando fracamente enquanto nos contorcíamos de desejo, procurando a melhor posição para nos conhecer. Eu me lembrava de tudo.

 

            Continuei descendo. A pressão já estava quase insuportável. Sentia meu corpo se deformando, o sangue saindo da superfície e se concentrando no meu centro. A água era congelante, bem mais que no alto. Me concentrei então em meu coração batendo e me lembrava dela. Senti um movimento fraco no meu lado esquerdo que me alertou e espantou as lembranças. Era um movimento de fuga. Notei a tênue luz, fraca, móvel, quase imperceptível. Não era tão forte quanto a luz de cima, a que aparecia quando queria, mas eu sabia o que significava. Era ela. Finalmente. A caça, finalmente!

 

            Ela tentou fugir. Me virei para o lado dela, devagar. A pressãoinsuportável, me impedia os movimentos rápidos. Estava muito fundo e sabia que havia muito mais água abaixo de mim, esse era o meu limite. Torci para que ela não descesse mais ainda onde eu não poderia mais alcançá-la e minha barriga continuaria roncando.

 

            Eu a sentia agora, estava bem na minha frente e tentava escapar o mais rápido possível. Acelerei o mais que podia. Abri a boca e fechei com força, mas só mordi alguns tentáculos. Tinha que morder de novo e rápido antes que seu bico me alcançasse. Ela era grande, tinha quase a metade de meu tamanho e tentava a fuga desesperadamente. Ela sabia que estaria perdida se eu a alcançasse.

 

            Mordi, mas tarde demais. Durante a confusão de tentáculos tentando se afastar tive de abrir demais a boca, o bico dela foi mais rápido  e arrancou um pedaço de meu lábio antes da mordida final. Eu sangrava na água gelada, mas sabia que isso cicatrizaria em pouco tempo. A água fria espantava a dor, pelo menos no momento, mas é claro que eu lembraria disso por algum tempo. Meu tempo no fundo tinha se esgotado. Tinha de subir. Parei um pouco para saber onde naquela escuridão sem fim era o alto e subi enquanto  comia o mais rápido possível. Perdi vários pedaços durante a subida mas não havia outro jeito, precisava de ar e rápido!

 

            Finalmente a superfície!  Irrompi rápido, respirei uma, duas, três vezes, profundamente, até acalmar o coração. Acalmar as batidas. Acalmar a mente. Então notei a luz. Ela estava lá. Finalmente ela tinha aparecido. Branca, fria, sem ofuscar como a outra. Fiquei um pouco de lado, respirando e descansando enquanto a observava. Os outros também subiram pois ouvia as mesmas reclamações de sempre, as mesmas cantigas de luta, de ferimentos, de vitória, as mesmas lamentações. Então a ouvi  de novo. Sua voz suave, inconfundível, reconfortante, quase uma carícia depois de um combate. Sentia meu ferimento latejar e a noite apenas começara. Olhei para a luz novamente. Então olhei para baixo, para a escuridão...

 

MRTH – 1997

 

(Meu primeiro conto. Escrevi esse para a minha namorada, agora minha esposa. O primeiro de uma série de dezenas, talvez uma centena. Minha tática era escrever e entregar a ela. E depois, claro, tinha uma desculpa para ligar para ela à noite. Claro, apenas para saber o que ela achou. Lembro que ela disse que esse estava bonzinho... :rotfl2:)

 

 

Não tanto quanto TI, mas realizei algumas façanhas escrita ao juntar alguns rascunhos , atendendo a materia escolar quando o assunto era as redações.

sendo esta a sua primeira aventura em 1997, penso que há uma rica coletânea a ser reeditada. a Amazon é bem estruturada , tanto que sofro muito para compreender - mas é pela minha ignorancia mesmo, me falta esse conhecimento. :first::bs-aplauder: voce ecletico com estilo de linguagem literária.

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54 minutos atrás, Domingos Bomediano disse:

Se não me engano você já o tinha publicado por aqui, nénão, Mauricio? Muito legal! :clapping:

Sim, mas...sumiu!

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  • 4 weeks later...

Academia Brasileira de Pesca ... ops ... de Letras kkkkkkk

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Agora, Tanikawa disse:

Academia Brasileira de Pesca ... ops ... de Letras kkkkkkk

Com essa pandemia, acabei me tornando  um grande teórico da pesca esportiva.....

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2 horas atrás, Mauricio. disse:

Com essa pandemia, acabei me tornando  um grande teórico da pesca esportiva.....

E eu fiquei mais compulsivo na aquisição de iscas artificiais kkkkkkkk 

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9 horas atrás, Mauricio. disse:

Com essa pandemia, acabei me tornando  um grande teórico da pesca esportiva.....

Escreve mais textos sobre equipamentos de pescas antigos e causos de pesca!

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1 hora atrás, Andre Iguti disse:

Escreve mais textos sobre equipamentos de pescas antigos e causos de pesca!

:ok: Algo a pensar.

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