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A máquina do tempo


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Não tem como voltar no tempo. Ainda. Pode ser que em algum ponto futuro de nossa existência, possamos ter um mecanismo que o permita, mas hoje, não dá.

Seria bom ou ruim? Tal e qual aquela dúvida de criança que, tremendo de insegurança, deixa de escorregar no tobogã do parque de diversões, de pular no lago, de arriscar o primeiro beijo, tenho calafrios de pensar nessa improvável decisão a tomar. Já pensou? Passar o resto da vida lamentando não ter ido com tudo! Sim, a dúvida permanece, a gente só não treme mais as pernas - essas tremem o tempo todo, cansadas pelo passar dos anos.

Creio que seria muito bom, o mais difícil seria voltar. Como deixar pra trás no tempo a mãe, o pai, os avós, os amigos que se foram, aquele momento passado que sabemos que não dura pra sempre?

Um dia desses um amigo me perguntou qual foi a melhor pescaria da minha vida e eu falei pra ele que tinha sido uma com meu pai na baía de Guanabara em meados dos anos 80. Ele emendou com outra pergunta: 

" - Pegaram muitos peixes?"

Ao que respondi:

" - Não lembro".

Mudamos de assunto, estava entendido. Nos despedimos em seguida. Ele foi andando, disfarçando um sorriso e eu, uma lágrima.

Como seria bom voltar no tempo! Se pudesse, voltaria ao ano de 1978, aquele da Copa do mundo na Argentina (e do vendido time do Peru). Mas não voltaria por causa da copa... Voltaria pra dar um prato de comida àquele morador de rua que eu vi na porta do mercadinho vizinho, comendo uma cebola crua achada no lixo, tarde da noite na véspera de Natal. Eu, então com oito anos, nunca mais esqueci aquela (vinte vezes) maldita cena. 

Voltaria àquela primeira entrevista de emprego em inglês. I could have been hired.

Usaria todas as iscas artificiais que tínhamos em todas as pescarias que fui com meu pai.

Ia descer aquele ladeirão de perto de casa freando menos e pedalando mais. Os cabelos ao vento iam agradecer.

Teria dado o primeiro passo. 

Teria aprendido a tocar violão, guitarra, bateria ou cuíca, tanto faz. Teria ficado mais tempo me extasiando com aqueles pores-do-sol em Arraial do Cabo, Ipanema, praia da Bica ou qualquer outra praia que estive. Não ia forçar o equipamento como fiz naquelas brigas com peixes perdidos por um nó que arrebentou ou um anzol que abriu.

Andaria de mãos dadas com minha mãe mais algumas centenas de vezes e ouviria mais conselhos. 

Mas, não dá. Tal e qual Drummond, sigo de mãos pensas, avaliando o que perdi com o tempo.

 

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Certamente Grande Fred, reviver e refazer muitas passagens idas,...cuide-se bem!!!, nas vezes que me deu esses nuances saudosistas perguntei a minha voz interior se estava chegando a minha hora... ahahaha!. a Elis Regina numa entrevista mais ou menos nesta época disse: - que Deus poderia ter nos dados duas vidas, uma para acertar e a outra para corrigirmos onde erramos. Assim como você descreve nesta linda reflexão , inúmeras vezes desejei o poder do super homem - o filme, quando a sua amada morre e ele a abraça e voa dando voltas no globo terrestre voltando o tempo. infelizmente só temos uma vida e não dá para fazer dela um laboratório de experiências.. a Elis estava certa!

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4 horas atrás, Roque Moraes disse:

Certamente Grande Fred, reviver e refazer muitas passagens idas,...cuide-se bem!!!, nas vezes que me deu esses nuances saudosistas perguntei a minha voz interior se estava chegando a minha hora... ahahaha!. a Elis Regina numa entrevista mais ou menos nesta época disse: - que Deus poderia ter nos dados duas vidas, uma para acertar e a outra para corrigirmos onde erramos. Assim como você descreve nesta linda reflexão , inúmeras vezes desejei o poder do super homem - o filme, quando a sua amada morre e ele a abraça e voa dando voltas no globo terrestre voltando o tempo. infelizmente só temos uma vida e não dá para fazer dela um laboratório de experiências.. a Elis estava certa!

:iCo01:

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Grande Fredd,

Emocionante, meu amigo! E a vida é assim mesmo, se de um lado vemos o que deixamos de fazer, vendo também o que fizemos de forma que não deveríamos ter feito, podemos por outro, relembrar coisas muito boas como faz você no texto. Mas o melhor de tudo é que das coisas que não fizemos ou deixamos de fazer, há algumas que ainda podemos fazer! Belíssimo texto, meu Amigo! :iCo01: :clapping:

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Pessoal aqui no Pescaki está muito inspirado kkkkk Parabéns pelo texto. Se pudesse voltar no tempo, teria curtido ficar mais com meus avós maternos, que se foram quando ainda era criança e que tantas saudades me trazem. Teria agradecido mais meus professores, buscado mais a felicidade do que o sucesso no trabalho, dado mais valor a tantas coisas que já foram e ficaram num passado que ocorreu no segundo anterior.

Não pense no futuro. O futuro é o próximo segundo. A vida é curta então curta a vida como uma boa pessoa! Pesque, viaje, dê uma volta no parque, saia da frente da TV.

Grande abraço a todos e um baita fim de semana!

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Sim, nós sempre perdemos muito. Quem consegue fazer tudo que queria? Ou do jeito que queria. Em quais portas entraria? O problema, é que certas visões chegam sempre muito tarde.

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