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Uma Estrela - uma continuação do conto


Mauricio.

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(Não terminei ainda. Uma pena. Mas aqui vai uma pequena continuação daquele conto, já que o tópico está fechado. :ok:)

 

 

              Ela reconheceu sua situação. Tinha visto pessoas na noite anterior e era assim que elas eram. Tentou caminhar de quatro como sempre fez na vida mas aquela forma não lhe pareceu prática e ela logo desistiu. Mesmo assim, tinha de sair dali. Mas como, com aquelas pernas? Então se lembrou das pessoas que viu na cidade. Sentindo um equilíbrio diferente, levantou-se devagar, os braços abertos como a procurar apoio. Aquilo era muito estranho. Agachou-se rápido. Tentou de novo, agora com mais equilíbrio que antes. Esticou o corpo. Sim, era possível ficar ereta.  Agora, o principal. Deu um passo. Devagar. Depois outro. Sim, aquilo lhe pareceu mais fácil. Ela conseguia se equilibrar. Era possível andar. Mas para onde? A floresta? Um abrigo? Para onde?

              Caminhou um pouco ao esmo, tentando se acostumar com a nova situação. Ela agora estava bem mais alta e conseguia enxergar mais facilmente por sobre o capim alto. Viu a floresta logo adiante. Era a melhor opção. Mas, naquele instante, ouviu também outra coisa. Um galo cantava não muito longe, talvez a uns cem metros. Lembrou que estava realmente com fome, ela não tinha se alimentado há quase dois dias. E galinhas eram uma boa forma de alimento, ela bem o sabia.

 

4

             

              Isabel acordou em seu quarto como sempre fazia. A luz filtrava-se pela cortina da janela, mostrando que um novo dia iniciava. Virou-se na cama, pensando que poderia ficar mais um pouco. Não. Não poderia. Um misto de sono, preguiça e desgosto de saber que ia ter um dia como os outros passou por sua mente, refletindo-se em seu rosto ainda inchado de dormir. Primeiro banheiro, onde antes de sair deu uma olhada no rosto, esperando que mais nenhuma espinha estivesse nascendo. Depois, tirar o pijama e colocar uma roupa para já estar meio pronta para a escola. Escola. Como detestava escola...

              Ao entrar na cozinha, Isabel ouviu o latido dos cachorros. Abriu o armário, procurando uma xícara e um pires. Será que tinha sobrado daquele bolo? Já estava ficando duro. Melhor não. Ou sim. Sua mãe não faria mais um naquele dia. Teria de ser esse mesmo. Os latidos continuavam, junto com o alarido dos outros bichos. Algum esquilo, ela pensou, como sempre. Ou gambá. Morar em chácara tinha dessas coisas. A vida selvagem sempre dava as caras.  Mas os latidos eram diferentes, como se os cães estivessem também com algum receio. Não eram cães grandes, logo, mais latiam do que realmente agiam. Mas eles deveriam ter acuado algum animalzinho diferente, pensou, que estaria apavorado. Ou pior.

              - Vai ver o que é – disse sua mãe, que entrava naquele momento na cozinha.

              Sim, seria bom dar uma olhada. E, mesmo, ela também estava curiosa.             Abriu a porta da cozinha que dava para o grande quintal, terreiro batido onde galinhas, patos, marrecos, um peru, algumas angolas, pombos e todos os pássaros e animais que não se assustavam e conseguiam se aproveitar da presença humana batiam seu ponto diariamente. E onde os dois cães da chácara faziam seu reino.  Reino esse que agora eles defendiam ardorosamente, cercando e latindo para o baixo telhado que protegia o galinheiro.

              - Rex, Cuca! O que foi?

              Ela se aproximou. E viu que o que eles temiam estava em cima das telhas de zinco, rosnando, mostrando os dentes e olhando para eles com o rosto mais assustado que ela já vira:  

              - Mããããeeee!! Tem uma menina aquiiii!

 

5

 

              Sua mãe saiu rápido, ainda amarrando o avental. E, juntas, agora ela também via o que os cães tinham acuado: uma garota nua, agachada sobre as telhas olhava para os quatro com um apavorado rosto desgrenhado e um tanto sujo de terra.

              Rex, Cuca, quietos! – ameaçou a mãe - Isabel! Quem é? Você conhece essa menina?

              - Não sei quem é – respondeu, gritando para a jovem que as olhava com um misto de confusão e medo -  Quem é vocêêê? Porque você está pelada aí em cimaaaa?

              - Menina, desça já daí! – disse a mãe – Aconteceu alguma coisa com você? – disse, temendo que algum tipo de violência tivesse ocorrido com a insólita visitante da manhã.

              A menina olhava para baixo com um misto de medo e curiosidade, mas ainda não fazia qualquer menção de que desceria de lá.

              - Mocinha! Desça já! – disse a mãe

              Um olhar de incompreensão foi a resposta.

              - Quem será ela, mãe?

              - Não sei. Mas ela está assustada. E parece também estar um pouco arranhada. Espero que os cachorros não a tenham mordido. Isabel, vai buscar aquele cobertor verde.

              Além do cobertor foram também buscar uma escada. Subindo devagar, a mãe notava o receio da garota agora agachada e tentando parecer o menor possível enquanto mostrava ocasionalmente os dentes como um recurso de defesa ancestral. Dona Cristina percebeu que aquela não era uma garota qualquer. Assustada demais, não parecia confiar nelas e não disse uma palavra desde o começo do episódio.

              Ela temia pelo pior, sabedora de como o ser humano é ruim e maldoso. Muitas coisas poderiam fazer alguém regredir a esse ponto, principalmente uma criança. Mas não poderia afirmar nada ainda. Faltava comunicação. Devagar, como faria a um cão assustado, ela ofereceu  o cobertor com braço esticado. Recebeu em resposta de novo um olhar de incompreensão enquanto a menina se protegia no ponto mais distante das telhas.  Isso teria de ser devagar, pensou a mãe. Bem devagar, pensou de novo, enquanto a garota franzia o nariz e mostrava os dentes.

 

6

 

              Não foi fácil convencer a menina a descer e menos ainda conseguir enrolá-la no cobertor e levá-la para dentro da casa. Mas de alguma forma as duas presenças também femininas e francamente benévolas pouco a pouco foram minando o medo, que passou de uma desconfiança  clara e aberta a um receio prudente,  para finalmente chegarem a uma confiança inicial ainda um pouco temerosa mas razoavelmente manipulável.

              Isabel teve de subir no telheiro e se aproximar dizendo palavras de calma e oferecendo o cobertor. Ela o cheirou e algo nele pareceu estar correto, não sentiu perigo.  Com alguma paciência ela aceitou ser coberta e pulou para o chão depois que Isabel prendeu os cães. Deixou-se ser conduzida, mas ainda mostrava estar arredia e tentava vez por outra escapar das mãos um tanto desesperadas para mantê-la enrolada, onde as palavras da mãe e filha acalmando-a pareceram funcionar.

              - Um bicho do mato – disse a mãe – O que aconteceu? - pensou

               Agora na cozinha, sentada no chão ao lado do armário de mantimentos com as duas ajoelhadas ao lado dela parecia sentir-se um tanto incomodada com os olhares diretos e desviava o próprio constantemente.  A situação derivou para uma trégua cômoda, que melhorou ainda mais depois da água oferecida. A menina parecia não saber bem como usar um copo, mas de alguma forma praticamente lambeu toda a água. E, oferecidas logo em seguida,  mastigou as bolachas de água e sal de forma um tanto desajeitada, mas ainda aceitável, não sem antes ver uma demonstração de Isabel que aquelas coisas esbranquiçadas eram para se comer.

              - Ela precisa aprender a mastigar de boca fechada - disse a filha.

              - Sim – disse a mãe – Ela parece estar bem atrasada. Parece um bicho do mato.

              - Quem será ela? – disse Isabel.

              A necessidade de informação quanto à identidade teria de esperar. Aparentemente, a garota deveria ter sofrido algum grande choque e ficou temporariamente incapacitada de pensar direito, explicou a mãe.

              - Bom, filha, acho que você arranjou um trabalho. Não irá à escola hoje. Depois eu falo com a sua professora. Fique aqui com ela enquanto eu trago uns panos e um balde. Ela está imunda.

              Não sabendo se ficava feliz ou triste com a ordem mas visivelmente apreensiva, sentou no chão ao lado da estranha visitante, com o pacote de bolachas aberto pronto a oferecer mais alguma se ela quisesse. E ela parecia um saco sem fundo. Estava visivelmente faminta.

              - Qual é seu nome? – perguntou Isabel.

              As perguntas caíam no vazio. Os olhares da visitante iam do pacote de bolachas para  os itens da cozinha, olhando rapidamente nos olhos das duas para logo em seguida desviar o olhar. Ela parecia preferir olhar mais para o ambiente em que estava do que para a interlocutora, que desanimava a cada instante.

              - Você não sabe falar?

              A mãe voltou com o necessário para uma ligeira limpeza, que pareceu não ser exatamente compreendida pela menina que a toda hora tentava escapar de ser esfregada, dando tapas no pano e sibilando. Teve mais cuidado ao limpar os arranhões que ela tinha nas coxas e braços, uma visão que se mostrava desconfortável às duas. A menina mostrou os dentes e fungou mais uma vez quando se tentou limpar o rosto dela, para receber uma bela reprovação da mãe:

              - Menina, se você continuar a fazer isso vamos muito mal por aqui...

 

7

 

              Ela tinha entrado em um território diferente. Sabia que havia perigo por lá, mas a fome falava mais alto. Agora ela conseguia ouvir as galinhas e muitas outras aves. Sabia o que fazer. Tinha de se aproximar devagar usando qualquer coisa no caminho que pudesse escondê-la. Ela salivava.  Agachou-se atrás do depósito de milho. Depois, esgueirou-se até o monte de lenha. Agora estava perto, bem perto. Bastava uma corrida e agarrar a refeição. Seria fácil. Seu corpo agora se preparava para o arremesso final. E teria feito exatamente isso se naquele momento dois animais maiores não a tivessem percebido. Os cães começaram a latir e correr na direção dela.

               Sentiu o alerta em seu corpo, a adrenalina começando a correr em suas veias dizendo que ela tinha de fugir dali agora. Mas não havia como voltar pelo mesmo caminho, ela teria de correr para o primeiro abrigo que fosse razoável. Não havia uma árvore por perto que fosse alta ou tivesse galhos grossos o suficiente mas havia aquela estranha plataforma feita com chapas que brilhavam.

              Ela se arranhou ao subir. Isso já foi mais fácil no passado, ela pensou. As chapas faziam barulho e se deformavam quando pisava, mas aparentemente suportaria o peso dela. Os cães cercaram o telheiro e faziam um grande escândalo que a deixava mais assustada ainda. Ela sabia como se defender de animais agressivos mas preferia sempre escapar dessas situações.

              Estava temporariamente a salvo. Em algum momento eles desistiriam e ela poderia escapar dali. Enquanto tentava se localizar para dar uma corrida desesperada até a floresta de novo, viu duas figuras humanas se aproximando. A situação piorava a cada instante. Quem seriam eles? Ela já tinha visto pessoas na cidade, mas como estava escondida nas sombras ninguém a tinha notado e interagido com ela. Agora a situação era diferente, ela estava completamente exposta. E essas duas pessoas não pareciam se intimidar com suas ameaças. Seu coração batia rápido, talvez agora fosse o momento da morte. Talvez elas a matassem, como ela mesma sempre fez quando precisava comer. 

              No entanto, os acontecimentos naquele dia foram tão estranhos que algo dentro dela achou que poderia se dar um pouco mais de crédito ao destino. Afinal, ela absolutamente não era mais o que foi a apenas um dia. E, talvez, ela devesse se permitir ceder um pouco mais à espantosa realidade que insistia em cercá-la desde a fatídica noite. Aparentemente, nada mais era o que sempre tinha sido. Um turbilhão de pensamentos e emoções lhe chegava. Ela lembrou do cervo. Que agora era ela.

               O que a pessoa menor empurrava a ela era estranho, mas ela lembrava que na cidade as pessoas usavam coisas assim. Viu agora que aquilo não era natural, era alguma outra coisa que elas usavam em cima da própria pele. Lembrou-se das vezes em que se espojara nas folhas secas e levantava praticamente coberta por elas. Era o mesmo princípio. Sentiu o cheiro. Cheiro de pessoas. Cheiro de uma pessoa.

              Um misto de expectativa, surpresa e confiança sem motivos fizeram com que ela deixasse aquele ser humano a tocar. Afinal, ela agora também se parecia muito com esse estranho ser que mexia o focinho e fazia sons estranhos que de alguma forma mais a acalmavam que assustava. Apenas, ela a olhava diretamente e isso equivalia a um desafio. Porque ela não desviava o olhar? Ela não sabia disso? Seria bem mais fácil...

 

8

                           

              Quando o pai chegou à noite, deparou-se com uma situação um tanto diferente da rotina a que sempre estivera acostumado. Nenhuma estranheza em ver duas crianças, pois sua filha comumente trazia as amigas da escola. Mas aquela menina não parecia acompanhar a ideia que se tem de uma amiga de escola de uma filha. Os cabelos desgrenhados, o rosto desconfiado, mesmo de mãos dadas com Isabel ela parecia querer se esconder atrás dela como se estivesse com medo. A estranheza também estava no olhar aflito da filha e da esposa.

              - O que aconteceu?

              As duas olharam para a acabrunhada visitante ao mesmo tempo.

              - Quem é? Amiga sua, Isabel?

              Isabel não sabia exatamente o que falar, no que foi salva pela mãe:

              - Ela apareceu aqui de manhã, depois que você já tinha saído. Nua e suja, e muito assustada. Os cachorros a cercaram e assustaram. Ela não fala nada.

              A aproximação e o olhar inquisidor do pai fez com que a menina  desviasse o próprio e tentasse se esconder atrás de Isabel, visivelmente assustada.  Estava descalça, vestida com uma bermuda e uma camiseta velhas da filha que tiveram uma considerável dose de dificuldade em convencê-la a usar. Ela parecia não entender como se vestir e a toda hora tentava retirar as roupas como se fosse completamente desacostumada com isso, desistindo apenas depois do olhar severo da mãe e demonstrações pela filha de que deveria se manter assim. Um misto de cansaço e uma estranha confiança a fez ceder, mas não sem um visível desgosto.

              - Você não acreditaria como foi nosso dia aqui...

 

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Inquisidor esse conto. que se algum dia for concluído será uma bela reflexão. Talvez não tenhas mais tempo aqui a continuar Grande Maurício, no entanto encontrarás novo caminho a postar e nos presentear com essa Fábula.:joia:

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Maurício, abra uma conta (se não tiver já cadastrado é lógico) no instagram e poste lá.

Seria muito legal.

Abs

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4 horas atrás, Tanikawa disse:

Maurício, abra uma conta (se não tiver já cadastrado é lógico) no instagram e poste lá.

Seria muito legal.

Abs

Instagram não dá. Eles querem mandar na sua alma. :comemorando:

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Fazemos o seguinte: quando aqui parar totalmente, migramos para o Biguá, e se lá eles começarem de muita frescura, achamos um outro site que não queiram mandar muito. Se der, achamos um local para podermos continuar a postar nossos gostos.

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