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Uma Estrela - Continuação (2)


Mauricio.

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9

 

 

              Olhando a cozinha por dentro, ela pensou: “Então, é assim que eles vivem?”. Sentada perto do fogão, evitava os olhares de Isabel, sentada perto dela ainda com o pacote de bolachas nas mãos e olhava para o ambiente. Era quente, diferente do frio da madrugada que apenas agora se dissipava na chácara. Sentia cheiros, via cores, ouvia chiados como o da água que ainda fervia para o café que não tinha sido coado. A cada momento mais e mais informações vinham a ela. E a fome que vinha sentindo há dias parecia finalmente acalmar com a estranha comida crocante que a jovem lhe oferecia continuamente. Nunca sentiu aquele sabor. Por enquanto, pensou, estava a salvo.

              Poucos poderiam dizer que por trás daqueles olhos fugidios algo crescia cada vez mais. Os estranhos sons que via serem feitos pelas duas figuras humanas agora não lhe pareciam mais tão agressivos e estranhos, de alguma forma ela sentia que eles faziam parte de um tipo de comunicação que apenas ainda não lhe era compreensível, mas que sentia que poderia aprender mais nessa direção.

              Apenas esperar, ver, seguir, aceitar. Não estar em perigo era um alívio que permitia relaxar e explorar. Sentir as possibilidades, sentir a pressão da mágica do mundo entrando por todos seus sentidos. Havia mais em tudo agora. Não era apenas sentir frio, fome, medo, solidão, como sempre tinha sido até então e apenas agir para mitigar o problema quando ficasse insuportável. Uma miríade de detalhes agora faziam a diferença.

              Poderia dizer que isso até lhe dava um estranho prazer e agora ela ansiava por cada minuto a vir, cada instante a mais. Bebia aqueles fantásticos segundos, a curiosidade não impedindo uma mente que já tinha sido rasa encher-se cada vez mais daquela mágica novidade. Então era assim? Seria esse o mundo que ela vislumbrou apenas um dia atrás? Acordou de seu devaneio sentindo um pano úmido e frio sendo esfregado em seu rosto.

 

 

10

 

 

 

 

              - Mãe, se você tivesse outra filha, que nome daria a ela?

              A mãe olhou para ela. Ela bem sabia que nome teria uma segunda filha se tivesse tido a bênção de ter tido mais uma.

              - Ela se chamaria Catarina.

             

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              - Pai, ela pode ficar conosco?

              - Eu não sei, Isabel. Ela pode estar perdida. Ter família. Precisamos avisar a Polícia. Ou o Juizado. Vamos fazer isso amanhã, certo?

              - Eu queria que ela ficasse.

              Roupas usadas, uma cama velha armada às pressas, um colchão ainda em bom estado que era usado quando algum raro hóspede aparecia na chácara, tudo isso acompanhado de muita expectativa sobre uma nova visitante que não sabia falar. O que, para Isabel, pensava esperançosa, era só uma questão de tempo.  

 

 

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              A oficial de justiça saiu, visivelmente aliviada de se livrar daquele problema. Depois de a levarem ao Juizado de Menores e se apresentado, as explicações das circunstâncias do encontro e de tudo que aconteceu após, a falta de denúncias de desaparecimento junto com a exemplar falta de psicólogos, assistentes sociais, abrigos para menores e tudo mais que as comuns incompetências das municipalidades poderiam apresentar convenceram o Juiz a deixar a guarda da menor temporariamente com a família que a encontrou.

              Pelo menos até que se pudesse resolver a situação de forma legal, ou seja, provavelmente nunca nada seria resolvido ali. Mas assuntos mundanos sempre interessam menos que a sequência insólita e mágica de um estranho incidente, como veremos.  Então, Catarina ficaria com eles por pelo menos mais algum tempo, o que deixou Isabel muito feliz. 

              - Eles disseram que você pode ficar aqui em casa.

              Catarina olhava para o fogão enquanto mastigava um pedaço de bolo.

 

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              Dizem que nada como o tempo para colocar as coisas em suas devidas dimensões. Dias se tornaram semanas, talvez até um mês tivesse se passado. Isabel agora tinha uma amiga. Muda, temerária e estranha. Mas as duas pareciam ter ficado agora inseparáveis. Uma, a irmã que a outra nunca teve. Ou a amiga em que uma mistura de curiosidade e afeição a tornava irresistivelmente atraente, não como um brinquedo novo ou uma roupa nova mas como uma novidade, um misto de expectativa junto com uma nova responsabilidade, um sentimento que ela não tinha ainda experimentado em sua juventude. Para a outra, uma tutora, uma guia, alguém em que ela aprendia a confiar. Uma parecia completar a outra. E Catarina aprendia mais a cada dia. Pelo menos agora não perseguia mais as galinhas quando saia para o terreiro nem bufava para os cães, e finalmente aprendeu a usar o banheiro e como tomar banho a despeito de todas as tentativas que fez para escapar desses momentos tão terríveis.

              Agora saíam juntas, as mãos dadas, pelo terreno e arredores praticamente todos os dias, Isabel nunca desistindo de mostrar coisas, conversar, mesmo que sentisse que muito do que dizia caía em um estranho vazio. Às vezes Catarina se aproximava mais de Isabel, encostava seus ombros na nova amiga e levava sua cabeça para perto dela, cheirando-a e esfregando seus cabelos nos dela. Às vezes até tentava lambê-la, para horror da amiga.

              - Cata, pare com isso – Isabel reclamava, divertida.

              Na cozinha, cômodo agora especialmente íntimo de Catarina, praticamente nada escapou de ser examinado por aquelas mãos. Aprendeu que não deveria tocar no fogão quente, sabia agora onde conseguir água, sabia que deveria bebê-la em um copo, sabia que deveria sugá-la e não lambê-la, sabia que a comida ficava nas panelas mas havia um momento para acessá-la e ela não poderia pegá-la sem permissão embora ela o fizesse sempre que percebia não estar sendo observada. Mãos sujas a denunciaram no início, algo que ela aprendeu rápido a contornar usando o pano da cozinha, para desespero da mãe de Isabel. Ela aprendia.

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Desse jeito vamos morrer de curiosidade se não conseguirmos saber esta estória até o final. Afinal, Maurício, é História ou Estória? Quem sabe!

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